CAPÍTULO 66: “Que Casa Me Edificareis Vós? E Qual Seria O Lugar Do Meu Descanso?”

Este último capítulo do Livro de Isaías começa com um mandamento, em vigor durante todas as épocas do mundo, de que os justos erguessem templos ao Senhor. Oferecer sacrifícios indignamente é condenado, bem como estar envolvidos e em abominações e perseguição dos humildes e mansos. Quando o Senhor vier novamente, os que estiverem praticando iniquidades ficarão envergonhados. Na Segunda Vinda do Senhor os iníquos serão feridos, Israel como nação será restaurada em um dia e as nações gentias do mundo serão convidadas a virem adorar ao Senhor. Os sobreviventes olharão para os numerosos cadáveres com horror.

Este último capítulo marca o final da grande divisão do Livro de Isaías, abrangendo os capítulos 55 até 66, onde é descrito o retorno glorioso da antiga nação de Israel à sua terra natal, depois do arrependimento e purificação.[1]

No versículo 1 o Senhor declara que Ele é o Criador de todas as coisas: “Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?”[2] Os homens justos foram ordenados em todas as eras a erigirem templos ao Senhor. Este versículo descreve um templo que seria edificado nos últimos dias, antes da Segunda Vinda do Senhor.

Em Doutrina e Convênios o Senhor ordenou Seus discípulos dos últimos dias:

“Portanto em verdade vos digo que …vossos estatutos e julgamentos para o início das revelações e do alicerce de Sião e para a glória, honra e investidura de todos os seus munícipes são prescritos pela ordenança de minha casa santa, a qual meu povo sempre recebe ordem de construir a meu santo nome” (ênfases adicionadas).[3]

O Senhor declarou também em Doutrina e Convênios:

“E se meu povo me construir uma casa em nome do Senhor e não permitir que nela entre qualquer coisa impura, de modo que não seja profanada, minha glória descansará sobre ela;
“Sim, e minha presença lá estará, porque entrarei nela; e todos os puros de coração que nela entrarem verão a Deus”.[4]

Nos versículos 2 até 4 a voz do Senhor contrasta os malfeitores com Seus discípulos justos e humildes. No versículo 2 o Senhor disse: “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o Senhor; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”. Apesar do Senhor haver criado os céus e a Terra, Seu maior interesse está no homem contrito que treme da Sua palavra. O Senhor dá revelações àqueles que têm corações humildes e espíritos contritos, que aprendem com os ensinamentos do Senhor—dados através das escrituras, de seus profetas vivos e do Espírito Santo—com admiração, assombro e reverência.[5]

Falando contra o orgulho, Ezra Taft Benson declarou: “Orgulho é o pecado universal, o grande vício. … O antídoto para o orgulho é a humildade―mansidão, submissão. É o coração quebrantado e o espírito contrito”.[6]

O versículo 3 declara que sacrifícios oferecidos indignamente são grandes abominações: “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações”. Matar um boi para oferecer como sacrifício, sacrificar um cordeiro, oferecer uma oblação, e queimar incenso, indignamente, são comparados com assassinato, com matar um cão, com oferecer sangue de porco, e com a bendição de um ídolo, respectivamente. Sob a Lei Mosaica as abominações descritas aqui foram definidas em detalhes.[7] Neste versículo o Senhor adverte àqueles que edificariam templos nos últimos dias a não entrarem neles indignamente, nem a fazerem ordenanças sagradas sem primeiro purificarem-se através do arrependimento sincero. Aqueles que se deleitam em iniquidades enquanto mantêm uma aparência de que estão participando em ordenanças sagradas estão cometendo um escárnio solene.

O versículo 4 declara a maldição sobre os iníquos: “Também eu escolherei as suas calamidades, farei vir sobre eles os seus temores; porquanto clamei e ninguém respondeu, falei e não escutaram; mas fizeram o que era mau aos meus olhos, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer”. Aqueles que não dão ouvidos ao Senhor e praticam o mal sofrerão calamidades e temores.

Os versículos 3 e 4 contêm um quiasma:

A: (3) Quem mata um boi
B: é como o que tira a vida a um homem;
A: quem sacrifica um cordeiro
B: é como o que degola um cão;
A: quem oferece uma oblação
B: é como o que oferece sangue de porco;
A: quem queima incenso em memorial
B: é como o que bendiz a um ídolo;
C: também estes escolhem os seus próprios caminhos,
C: e a sua alma se deleita nas suas abominações.
B: (4) Também eu escolherei as suas calamidades,
A: farei vir sobre eles os seus temores;
B: porquanto clamei
A: e ninguém respondeu,
B: falei
A: e não escutaram;
B: mas fizeram o que era mau aos meus olhos,
A: e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer.

Este quiasma exibe uma forma escalonada, como os outros dois exemplos no capítulo anterior. As quatro apresentações do primeiro elemento (A)—“Quem mata um boi”, “quem sacrifica um cordeiro”, “quem oferece uma oblação”, e “quem queima incenso em memorial”, no versículo 3—são coletivamente equivalentes às quatro reflexões (A) no versículo 4: “Farei vir sobre eles os seus temores”, “ninguém respondeu”, “não escutaram”, e “e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer”. Estas comparações confirmam que os sacrifícios e as oblações são feitos iniquamente, não em obediência às leis do Senhor. As apresentações do segundo elemento (B) deste quiasma e suas reflexões também aparecem quatro vezes: “É como o que tira a vida a um homem”, “é como o que degola um cão”, “é como o que oferece sangue de porco”, e “é como o que bendiz a um ídolo”, e descrevem a inaceitabilidade absoluta das ofertas mencionadas no primeiro elemento. Estas frases são equivalentes, coletivamente, às quatro apresentações do segundo elemento (B) no versículo 4: “Também eu escolherei as suas calamidades”, “porquanto clamei”, “falei” e “fizeram o que era mau aos meus olhos” descrevem a falta de vontade do povo em dar ouvidos ao Senhor ou obedecê-Lo. A frase “Também estes escolhem os seus próprios caminhos” é equivalente à frase “a sua alma se deleita nas suas abominações”, que formam o enfoque deste quiasma. A iniquidade do povo—recusando-se a escolher o caminho do Senhor, e preferindo deleitar-se em abominações—faz com que os seus sacrifícios sejam abomináveis perante o Senhor.

Os versículos 5 até 9 descrevem como Sião nascerá como nação em um dia quando o Senhor voltar. O versículo 5 começa: “Ouvi a palavra do Senhor, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o Senhor, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos”. Aqueles que perseguem os justos—odiando-os e expulsando-os para a glória do Senhor, como eles supunham—ficarão envergonhados na Sua vinda, enquanto que os justos, os que tremem da sua palavra e são perseguidos, receberão o Senhor com alegria.

No versículo 6 diz que se ouvirá a voz do Senhor: “Uma voz de grande rumor virá da cidade, uma voz do templo, a voz do Senhor, que dá o pago aos seus inimigos”. O Grande Pergaminho de Isaías diz “Uma voz de grande rumor na cidade …”.[8] Os rumores na cidade serão as vozes dos justos, recebendo o Senhor.

Os versículos 5 e 6 contêm um quiasma:

A: (5) Ouvi a palavra do Senhor,
B: os que tremeis da sua palavra.
C: Vossos irmãos, que vos odeiam
C: e que para longe vos lançam por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o Senhor,
B: para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos.
A: (6) Uma voz de grande rumor virá da cidade, uma voz do templo, a voz do Senhor, que dá o pago aos seus inimigos.

A mensagem deste quiasma é que aqueles que expulsaram ou perseguiram os justos, de qualquer forma, devido às suas verdadeiras crenças no Senhor, serão contados como inimigos do Senhor na Sua vinda. “Ouvi a palavra do Senhor” complementa “Uma voz de grande rumor virá da cidade, uma voz do templo, a voz do Senhor, que dá o pago aos seus inimigos”. A voz do Senhor pode ser ouvida de diversas maneiras—no templo e nas ordenanças que são feitas lá, no castigo dos inimigos do Senhor e na destruição que logo recairá sobre os iníquos. “Os que tremeis da sua palavra” corresponde à “para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos”. Aqueles que acreditam no Senhor glorificá-Lo-ão; Sua vinda será uma alegria para eles.

Os versículos 7 e 8 descrevem o nascimento da nação de Sião; o versículo 7 começa com uma analogia: “Antes que estivesse de parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, deu à luz um menino”. Na analogia uma mulher dá à luz seu filho antes de entrar em trabalho de parto e antes de sentir as dores do parto—obviamente uma reversão improvável da ordem natural.

O versículo 8 explica a analogia, usando uma série de perguntas retóricas: “Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos”. As primeiras duas perguntas ilustram a improbabilidade da ordem natural ser revertida. As últimas duas perguntas explicam a analogia: “Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos”. Sião—referindo-se aqui tanto a um lugar de coligação espiritual quanto a um lugar de coligação física, a justa Jerusalém[9]—seria estabelecida num só dia na época da Segunda Vinda do Senhor. Além destes dois significados para “Sião”, outras interpretações também podem ser possíveis.

Os versículos 7 e 8 contêm um quiasma:

A: (7) Antes que estivesse de parto, deu à luz;
B: antes que lhe viessem as dores,
C: deu à luz um menino.
D: (8) Quem jamais ouviu tal coisa?
D: Quem viu coisas semelhantes?
C: Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia?
B: Nasceria uma nação de uma só vez?
A: Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos.

Neste quiasma o profeta Isaías e observadores nos últimos dias destes preditos acontecimentos expressam espanto que Jerusalém seria estabelecida em um dia. “Antes que estivesse de parto, deu à luz” é igual à “Mas seus filhos”; “Sião” é identificada por estas declarações equivalentes. Quase sem entrar em trabalho de parto Sião dá à luz um menino, que representa a justa Jerusalém.

O versículo 9 apresenta mais duas perguntas retóricas do Senhor: “Abriria eu a madre, e não geraria? diz o Senhor; geraria eu, e fecharia a madre? diz o teu Deus”. O Senhor assume responsabilidade por este glorioso acontecimento—fazendo com que se realize—e promete estar presente, figurativamente, trazendo presentes. Quanto a nós, precisamos ter fé no glorioso e prometido final das tribulações que já estão sobre nós—enchentes, terremotos, seca e fome, guerras e rumores de guerra, ódio, assassinatos, e assim por diante. Estas catástrofes deixam as pessoas que não têm fé consternadas e assustadas, perguntando “que Deus é esse, que permite tais coisas acontecerem?”

Os versículos 10 até 14 descrevem as bênçãos e alegrias preditas para a justa Jerusalém. O versículo 10 começa: “Regozijai-vos com Jerusalém, e alegrai-vos por ela, vós todos os que a amais; enchei-vos por ela de alegria, todos os que por ela pranteastes”. Todos os que amam Jerusalém e que lamentaram por ela, durante suas tribulações, regozijarão e alegrar-se-ão.

O versículo 11 continua: “Para que mameis, e vos farteis dos peitos das suas consolações; para que sugueis, e vos deleiteis com a abundância da sua glória”. Mantendo a analogia do nascimento dos versículos 7 até 9, as bênçãos a serem recebidas pela justa Jerusalém são simbolizadas pelo leite de peito.

O versículo 12 descreve mais sobre as bênçãos dadas à Jerusalém: “Porque assim diz o Senhor: Eis que estenderei sobre ela a paz como um rio, e a glória dos gentios como um ribeiro que transborda; então mamareis, ao colo vos trarão, e sobre os joelhos vos afagarão”. Jerusalém desfrutará de paz e glória duradouras—ou seja, de abundância, riquezas e poder militar—das nações gentias.[10] Os justos que habitarem em Jerusalém serão cuidados pelo Senhor, como as crianças são cuidadas por suas mães.

O versículo 13 explica a metáfora: “Como alguém a quem consola sua mãe, assim eu vos consolarei; e em Jerusalém vós sereis consolados”.

Os versículos 10 até 13 contêm um quiasma:

A: (10) Regozijai-vos com Jerusalém, e alegrai-vos por ela, vós todos os que a amais;
B: enchei-vos por ela de alegria, todos os que por ela pranteastes;
C: (11) Para que mameis, e vos farteis dos peitos das suas consolações; para que sugueis, e vos deleiteis com a abundância da sua glória.
D: (12) Porque assim diz o Senhor: Eis que estenderei sobre ela a paz como um rio,
D: e a glória dos gentios como um ribeiro que transborda;
C: então mamareis, ao colo vos trarão, e sobre os joelhos vos afagarão.
B: (13) Como alguém a quem consola sua mãe, assim eu vos consolarei;
A: e em Jerusalém vós sereis consolados.

Este quiasma declara que a Jerusalém restaurada se beneficiará tanto da paz dada pelo Senhor quanto da glória, ou riquezas, dos gentios. “Regozijai-vos com Jerusalém, e alegrai-vos por ela, vós todos os que a amais” é complementado por “em Jerusalém vós sereis consolados”. “Para que mameis, e vos farteis dos peitos das suas consolações; para que sugueis, e vos deleiteis com a abundância da sua glória” compara-se com “então mamareis, ao colo vos trarão, e sobre os joelhos vos afagarão”. A alegria de estar na Jerusalém restaurada é comparada, metaforicamente, ao conforto e ao leite dado pela mãe que amamenta seu bebê. “Estenderei sobre ela a paz como um rio” corresponde à “a glória dos gentios como um ribeiro que transborda”.

O versículo 14 conclui: “E vós vereis e alegrar-se-á o vosso coração, e os vossos ossos reverdecerão como a erva tenra; então a mão do Senhor será notória aos seus servos, e ele se indignará contra os seus inimigos”. Ao ver o conforto de Jerusalém os corações dos homens alegrar-se-ão. As bênçãos do Senhor sobre os justos e Sua ira contra os Seus inimigos serão reconhecidas por todos.

No original em inglês, a famosa e amada música de Natal do compositor Isaque Watts “Mundo Feliz, Nasceu Jesus” é, em verdade, uma música sobre a Segunda Vinda do Senhor. Talvez esta música será cantada pelos justos quando estiverem recebendo o Senhor:

Mundo feliz, veio Jesus. Veio trazendo a luz!
Trazendo a salvação, Trazendo a redenção, Louvemos ao Senhor!

Mundo feliz, o seu perdão Roguemos em união!
Na terra e no mar, Cantemos sem cessar, Cantemos seu louvor!

Mundo feliz, hoje afinal, Vencido foi o mal!
Em nosso coração, em santa contrição, Roguemos seu perdão!

Mundo feliz, louvai a Deus Aos gratos dotes seus!
O Filho nos mandou, Ao pecador salvou Hosanas ao Senhor![11]

Os versículos 15 até 18 descrevem a gloriosa vinda do Senhor e destruição dos iníquos que acompanharia este acontecimento culminante. O versículo 15 declara: “Porque, eis que o Senhor virá com fogo; e os seus carros como um torvelinho; para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo”. O Grande Pergaminho de Isaías diz carro, ao invés da forma plural.[12] O Senhor virá entre as chamas de fogo, as quais destruirão os iníquos. Carros de fogo—combinando, quiasmaticamente, os elementos equivalentes desta descrição—foram mencionados em outras partes no Velho Testamento. O profeta Elias foi arrebatado aos céus por um carro de fogo;[13] Eliseu, o sucessor de Elias, viu um exército celestial com carros de fogo, rodeando e defendendo Israel durante uma batalha.[14] Despois de chamar, pacientemente, o Seu povo errante ao arrependimento, o Senhor virá em Sua ira e furor para destruir os ímpios. O tempo para arrepender-se—“o ano aceitável do Senhor” descrito no capítulo 61 por Isaías[15]—já haverá passado.

O versículo 16 descreve a destruição dos iníquos: “Porque com fogo e com a sua espada entrará o Senhor em juízo com toda a carne; e os mortos do Senhor serão multiplicados”.[16] O significado em hebraico de “com a sua espada entrará o Senhor em juízo com toda a carne” é que “toda a carne será julgada pelo Senhor”.[17] O Senhor destruirá multidões de iníquos na Sua Segunda Vinda, tanto pela espada quanto pelo fogo.[18]

O Senhor, em Doutrina e Convênios, deu mais informações acerca de Sua Segunda Vinda:

“Eis que é meu desejo que todos os que invocam meu nome e me adoram, de acordo com meu evangelho eterno, se reúnam e permaneçam em lugares santos;
“E preparem-se para a revelação que virá quando o véu que cobre meu templo, em meu tabernáculo, que oculta a Terra, for retirado; e toda carne juntamente me verá.
“E toda coisa corruptível, seja do homem ou dos animais do campo ou das aves do céu ou dos peixes do mar, que habita na face da Terra, será consumida;
“E também o que for de elementos derreter-se-á com calor fervente; e todas as coisas tornar-se-ão novas, para que meu conhecimento e minha glória habitem em toda a Terra”.[19]

Foi também mostrado a Malaquias a gloriosa Segunda Vinda. O Senhor ressuscitado repetiu a descrição de Malaquias aos nefitas, bem como aos Seus discípulos nos últimos dias: “Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo”.[20]

O versículo 17 continua a descrição dos injustos que perecerão: “Os que se santificam, e se purificam, nos jardins uns após outros; os que comem carne de porco, e a abominação, e o rato, juntamente serão consumidos, diz o Senhor”. A santificação e purificação como descritas neste versículo referem-se à adoração idólatra, ao invés ao verdadeiro arrependimento e purificação através da Expiação. Os pecados descritos aqui são infrações específicas da Lei Mosaica, mas representam a desobediência deliberada.[21] Comer carne de porco,[22] comer carne de rato,[23] e outras abominações são repugnantes ao Senhor e resultarão em destruição.[24]

O versículo 18 sumariza os versículos anteriores e apresenta o seguinte: “Porque conheço as suas obras e os seus pensamentos; vem o dia em que ajuntarei todas as nações e línguas; e virão e verão a minha glória”. Visto que o Senhor conhece os nossos pensamentos, alguns serão destruídos enquanto que outros serão reunidos para ver a glória do Senhor.

Ao citar o versículo 18, Neal A. Maxwell ensinou:

“Deus, que é Todo-Poderoso e capaz, permite que todos os mortais tenham liberdade de escolha. No entanto, quão gratos devemos ser pelo fato de Deus ter decidido há muito tempo resgatar e ressuscitar todos os Seus filhos por meio da Expiação de Seu Filho. Não obstante, alguns rejeitam essa e outras bênçãos divinas e muitos são indiferentes à elas, basicamente porque estão por demais preocupados com os cuidados do mundo. O Salvador lhes é estranho, estando longe de seus pensamentos e desígnios de seus corações.[25]
“Em meio à inacreditável vastidão do plano de Deus é incrível notarmos Sua natureza tão pessoal. Por exemplo, ‘… [Deus] observa todos os filhos dos homens e conhece todos os seus pensamentos e intenções’”.[26], [27]

Nos versículos 19 até 22 diz que mensageiros iriam convidar os gentios por todo o mundo a virem adorar ao Senhor. No versículo 19, o Senhor prediz: “E porei entre eles um sinal, e os que deles escaparem enviarei às nações, a Társis, Pul, e Lude, flecheiros, a Tubal e Javã, até às ilhas de mais longe, que não ouviram a minha fama, nem viram a minha glória; e anunciarão a minha glória entre os gentios”.[28] O Grande Pergaminho de Isaías diz “E porei entre eles sinais …”.[29] “Os que deles escaparem” referem-se aos que sobreviverem as destruições por causa de sua retidão. O sinal a ser enviado entre os gentios representa o evangelho restaurado, inclusive O Livro de Mórmon. Os nomes mencionados aqui representam descendentes dos três filhos de Noé—Sem, Cão e Jafé.[30] Tubal [31] e Javã[32] eram filhos de Jafé; Jafé é considerado o fundador da raça grega.[33] Társis [34] era filho de Javã; Pul, ou Pute,[35] era filho de Cão; e Lude[36] era filho de Sem. “Às ilhas de mais longe” podem estar se referindo às nações dos gentios, compostas dos filhos de Jafé.[37]

O versículo 20 descreve a grande e final coligação de Israel dentre todas as nações da Terra: “E trarão a todos os vossos irmãos, dentre todas as nações, por oferta ao Senhor, sobre cavalos, e em carros, e em liteiras, e sobre mulas, e sobre dromedários, trarão ao meu santo monte, a Jerusalém, diz o Senhor; como quando os filhos de Israel trazem as suas ofertas em vasos limpos à casa do Senhor”. “Todos os vossos irmãos” referem-se às tribos dispersas de Israel. “Meu santo monte” significa o templo; aqui significa também a cidade de Jerusalém, onde o templo seria construído.[38] Os justos coligados são comparados a uma oferta de trigo ao Senhor.[39] O trabalho de coligação dos justos dentre os iníquos é comparado à colheita de feixes de trigo em várias partes nas escrituras.[40]

O versículo 20 contém um quiasma:

A: (20) E trarão a todos os vossos irmãos,
B: dentre todas as nações, por oferta ao Senhor, sobre cavalos,
C: e em carros,
D: e em liteiras,
D: e sobre mulas,
C: e sobre dromedários,
B: trarão ao meu santo monte, a Jerusalém, diz o Senhor;
A: como quando os filhos de Israel trazem as suas ofertas em vasos limpos à casa do Senhor.

A mensagem deste quiasma é que a casa restaurada de Israel traria uma oferta ao Senhor em justiça, que seria aceita pelo Senhor. “Trarão a todos os vossos irmãos” corresponde à “como quando os filhos de Israel trazem as suas ofertas em vasos limpos à casa do Senhor”. Os coligados de Israel usarão de todos os meios de transportes para irem à cidade de Jerusalém para apresentarem a oferta ao Senhor.

O versículo 21 declara: “E também deles tomarei a alguns para sacerdotes e para levitas, diz o Senhor”. Dos que foram coligados das nações da Terra, o Senhor apontaria alguns para serem ordenados ao sacerdócio e exercerem as funções do sacerdócio.

João Batista, ao conferir o sacerdócio a Joseph Smith e Oliver Cowdery, declarou que o sacerdócio “nunca mais será tirado da Terra, até que os filhos de Levi tornem a fazer, em retidão, uma oferta ao Senhor”.[41] A oferta aceitável descrita no versículo 20 seria feita por aqueles apontados como sacerdotes e Levitas, ou filhos de Levi, como foi descrito no versículo 21 em cumprimento da declaração de João Batista.

No versículo 22, o Senhor declara que a semente justa de Israel estaria diante de Sua face perpetuamente: “Porque, como os novos céus, e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante da minha face, diz o Senhor, assim também há de estar a vossa posteridade e o vosso nome”.[42] Aqui o Senhor fala coletivamente à toda Israel, como foi demonstrado pelo uso da segunda pessoa do plural, “vossa”. A promessa do Senhor—em cumprimento ao Convênio Abraâmico[43]—é que assim como os novos céus e a nova Terra permaneceriam para sempre, os justos de Israel e seu nome também permaneceriam.

No versículo 23 o Senhor declara que todos viriam perante Ele para adorá-Lo: “E será que desde uma lua nova até à outra, e desde um sábado até ao outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor”. Todos os que restarem na Terra servirão ao Senhor e adorá-Lo-ão.

No versículo 24 o Senhor prevê os sobreviventes das destruições saindo para observar os danos: “E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne”. O grande número de cadáveres causados pela destruição dos ímpios seria uma praga para os remanescentes. A destruição dos antigos jareditas, descrita no Livro de Mórmon, é um símbolo para esta condição detestável.[44] Isaías descreve a destruição dos iníquos na época da Segunda Vinda do Senhor no capítulo 34, usando semelhantes descrições.[45] Fogo é símbolo das dores do remorso que os iníquos sentirão. A frase “o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará” descreve a agonia—comparada à doença de parasitas intestinais—que sentirão perpetuamente pelos espíritos dos iníquos até o julgamento final. A frase também aparece no Novo Testamento e em Doutrina e Convênios com o mesmo significado.[46]

O versículo 24 contém um quiasma:

A: (24) E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim;
B: porque o seu verme nunca morrerá,
B: nem o seu fogo se apagará;
A: e serão um horror a toda a carne.

O tormento dos que perecerem na Segunda Vinda do Senhor não terminará com suas mortes, mas continuará até o julgamento. “E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim” comparara-se com “serão um horror a toda a carne”.
NOTAS

[1]. Os capítulos 2 até 39 descrevem Israel em sua terra natal num estado de iniquidade; os capítulos 40 até 54 descrevem Israel em exílio no mundo em geral, interagindo com pessoas e acontecimentos; e os capítulos 55 até 66 descrevem o retorno glorioso de Israel à sua terra natal depois de seu arrependimento e purificação.
[2]. Os versículos 1 e 2 contêm um quiasma: Diz o SENHOR/o céu é o meu trono, e a terra o escabelo/casa me edificaríeis vós//o lugar do meu descanso/a minha mão fez todas estas coisas/diz o Senhor.
[3]. Doutrina e Convênios 124:39.
[4]. D&C 97:15-16.
[5]. Donald W. Parry, Jay A. Parry e Tina M. Peterson, Understanding Isaiah [Compreendendo Isaías]: Deseret Book Company, Salt Lake City, Utah, 1998, p. 583.
[6]. Ezra Taft Benson, “Acautelai-vos do orgulho,” A Liahona, Julho de 1989, p. 5.
[7]. Levítico 11:10-23.
[8]. Parry, 2001, p. 248.
[9]. Ver Isaías 3:16; 49:14; 51:3, 11; 52:1; 60:14; 61:3.
[10]. F. Brown, S. Driver, e C. Briggs, The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [Léxico Hebraico e Inglês de Brown-Driver-Briggs]: Hendrickson Publishers, Peabody, MA, 01961-3473, 1996, Número de Strong 3519, p. 458. Ver também Isaías 17:3-4 e comentário pertinente.
[11]. Hinos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1990, Hino número 121, “Mundo Feliz, Nasceu Jesus.” “Veio” foi usado no versículo 1 por ser a tradução do termo usado no texto original em inglês.
[12]. Parry, 2001, p. 250.
[13]. Ver 2 Reis 2:11.
[14]. Ver 2 Reis 6:17.
[15]. Isaías 61:2.
[16]. Os versículos 15 e 16 contêm um quiasma: O Senhor virá com fogo/os seus carros como um torvelinho/a sua ira em furor//a sua repreensão em chamas de fogo/com fogo e com a sua espada/os mortos do Senhor.
[17]. Brown et al., 1996, Número de Strong 8199, p. 1047.
[18]. Ver Isaías 1:7, 28; 47:14; 64:1-2, 11 e comentário pertinente.
[19]. D&C 101:22-25.
[20]. Malaquias 4:1; Ver também D&C 133:64; 3 Néfi 25:1; 2 Néfi 26:4-6; D&C 5:19; 29:11; 64:24.
[21]. Isaías 66:17, nota de rodapé da versão SUD da Bíblia de King James em inglês 17a.
[22]. Ver Levítico 11:7; Ver também Isaías 65:4.
[23]. Ver Levítico 11:29.
[24]. Ver Levítico 11:10-23.
[25]. Ver Mosias 5:13.
[26]. Alma 18:32.
[27]. Neal A. Maxwell, “Um vidente escolhido”, A Liahona, Novembro de 2003, p. 99.
[28]. O versículo 19 contém um quiasma: Porei entre eles um sinal/enviarei às nações/Társis, Pul, e Lude//Tubal e Javã, até às ilhas de mais longe/não ouviram a minha fama/anunciarão a minha glória.
[29]. Parry, 2001, p. 250.
[30]. Ver Gênesis 5:32.
[31]. Gênesis 10:2; 1 Crônicas 1:5.
[32]. Gênesis 10:2.
[33]. Dicionário Bíblico—Javã.
[34]. Gênesis 10:4; 1 Crônicas 1:7.
[35]. 1 Crônicas 1:8.
[36]. Gênesis 10:22; 1 Crônicas 1:17.
[37]. Gênesis 10:5.
[38]. Ver Isaías 2:2, 3, 14 e 2 Néfi 12:2, 3, 14; Isaías 11:9; 13:2, 4; 30:25, 29; 56:7; 65:11 e comentário pertinente.
[39]. Ver Levítico 23:10-12.
[40]. Ver Salmos 126:6; Alma 26:5; 3 Néfi 20:18; D&C 31:5.
[41]. D&C 13:1.
[42]. Os versículos 21 e 22 contêm um quiasma: Deles tomarei a alguns para sacerdotes e para levitas/diz o Senhor/os novos céus, e a nova terra// … que hei de fazer/diz o Senhor/vossa posteridade e o vosso nome.
[43]. Ver Gênesis 22:16-18.
[44]. Compare Éter 14:22-23.
[45]. Ver Isaías 34:2-7.
[46]. Ver Marcos 9:44, 46, 48; D&C 76:43-45.

CAPÍTULO 65: “Não Te Chegues A Mim, Porque Sou Mais Santo Do Que Tu”

Neste capítulo o Senhor reconta como a antiga Israel foi rejeitada por causa da sua rebelião, apostasia, e idolatria. Devido a rebelião de Israel, outros que não são da linhagem do convênio receberiam as promessas e bênçãos do Senhor. Entretanto, Israel será restaurada e redimida nos últimos dias e desfrutará de grandes bênçãos. Durante o reinado milenar do Senhor, as nações agressoras se apaziguarão com suas vítimas perpétuas e Satanás será amarrado, sem poderes para tentar os justos.

Os versículos 1 até 7 recontam quando a antiga Israel rejeitou o Senhor, e logo depois disto o evangelho foi dado aos gentios. No versículo 1 o Senhor descreve como as nações gentias buscariam as bênçãos do evangelho: “Fui buscado dos que não perguntavam por mim, fui achado daqueles que não me buscavam; a uma nação que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui. Eis-me aqui”. A Tradução de Joseph Smith (TJS) apresenta “Fui achado dos que perguntavam por mim, não fui achado daqueles que não me buscavam, e não perguntavam por mim”.[1] A antiga Israel rejeitando o Senhor serviu como um símbolo para os últimos dias, quando ministros e discípulos das igrejas entre os gentios também rejeitarão o verdadeiro evangelho; por conseguinte, o verdadeiro evangelho e suas bênçãos seriam restaurados à linhagem do convênio que se arrepender.

Néfi explica, concisamente, como o evangelho seria rejeitado pela linhagem do convênio, os gentios receberiam o evangelho e, subsequentemente, rejeitá-lo-iam, e a linhagem do convênio recebê-lo-ia novamente:

“E chegará o tempo em que ele se manifestará a todas as nações, tanto aos judeus como aos gentios; e depois de haver-se manifestado aos judeus e também aos gentios, ele manifestar-se-á aos gentios e também aos judeus; e os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”.[2]

Durante Seu ministério terreno, o Senhor Jesus Cristo retratou esta relação usando as mesmas palavras, porém sem a detalhada explanação.[3]

O versículo 1 contém um quiasma:

A: (1) Fui achado dos que perguntavam por mim;
B: não fui achado daqueles que não me buscavam,
C: ou não perguntavam por mim;
C: a uma nação que não se chamava do meu nome
B: eu disse: Eis-me aqui.
A: Eis-me aqui.

O Senhor chamou a antiga Israel, mas Israel não deu ouvidos; as nações gentias receberam o evangelho depois do ministério terreno do Senhor e, nos últimos dias, receberão o Senhor. “Fui achado dos que perguntavam por mim” é complementado por “eis-me aqui”; o Senhor responde àqueles que O buscam. “Não fui achado daqueles que não me buscavam” é complementado por “eis-me aqui”; o Senhor chamou até mesmo aqueles que não Lhe buscavam. A repetição das frases complementárias no lado descendente é para dar ênfase, como se estivesse sublinhando.

No versículo 2, o Senhor reconta como Ele insistiu com Israel, mas ela não deu ouvidos: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, após os seus pensamentos”. TJS, onde inclui algumas das palavras usadas na tradução de João Ferreira de Almeida do versículo 1, apresenta:

“Eu disse ao meu servo, Eis-me aqui, olhai para mim; Eu te enviarei a uma nação que não se chamava do meu nome, porque estendi as minhas mãos o dia todo a um povo que não anda pelos meus caminhos, e as suas obras são más e não são bons, e anda após os seus próprios pensamentos”.[4]

“Anda por caminho que não é bom” contrasta-se com o caminho do Senhor, ou o Plano da Salvação.[5] A rejeição dos antigos é um protótipo para os gentios que, depois de haverem recebido o evangelho após a crucificação do Senhor, rejeitariam, coletivamente, o evangelho restaurado nos últimos dias.

O Apóstolo Paulo citou os versículos 1 e 2 em sua epístola aos Romanos:

“E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam.
“Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente”.[6]

Paulo declara que aqueles que foram descritos no versículo 2 são os descendentes de Israel, implicando que aqueles no versículo 1 que encontraram o Senhor são os gentios.

O versículo 3 descreve abominações cometidas pela Israel rebelde: “Povo que de contínuo me irrita diante da minha face, sacrificando em jardins e queimando incenso sobre altares de tijolos”. Sob a Lei de Moisés, era requerido que os altares fossem feitos de pedras não lavradas, ao invés de pedras talhadas ou esculpidas, ou outros materiais;[7] e também, os altares deveriam ser construídos em áreas longe de árvores.[8]

O versículo 4 continua a descrição do Senhor das abominações: “Que habita entre as sepulturas, e passa as noites junto aos lugares secretos; come carne de porco e tem caldo de coisas abomináveis nos seus vasos”. TJS apresenta “… e caldo de bestas abomináveis, e polui os seus vasos”.[9] “Habita” significa “sentar-se” entre as sepulturas, em hebraico.[10] Israel foi ordenada a abster-se de comer carne de porco,[11] evitar tocar em sepulturas,[12] e evitar comer qualquer outro animal que fosse uma abominação, ou declarado impuro.[13] Se um vaso estivesse contato com algo impuro, teria que ser minuciosamente lavado ou, se fosse um pote de barro, deveria ser quebrado.[14] Isaías descreve atos que demonstram desprezo pela Lei Mosaica.

No versículo 5, o Senhor descreve a extrema arrogância do povo: “Que dizem: Fica onde estás, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu. Estes são fumaça no meu nariz, um fogo que arde todo o dia”. Apesar da frase usada por Isaías “sou mais santo do que tu” não aparecer em nenhum outro lugar nas escrituras, tornou-se uma caracterização universal para a hipocrisia arrogante. A hipocrisia é uma ofensa aos olhos do Senhor; aqui Ele compara a hipocrisia com a opressiva “fumaça no nariz” que persiste todo o dia.

No versículo 6 o Senhor declara que deve se fazer justiça: “Eis que está escrito diante de mim: não me calarei; mas eu pagarei, sim, pagarei no seu seio”. O mal praticado pelas apóstatas Israel antiga e moderna será julgado pelo Senhor, que dará a recompensa justa. A frase “Pagarei no seu seio”, neste versículo, e seus equivalentes quiásticos no versículo 7, refletem a profunda angústia que sentirão os iníquos no dia do julgamento. A passagem que está escrita, a qual Isaías está se referindo aqui, não é facilmente identificada, mesmo usando técnicas de busca computadorizadas.[15]

Os versículos 2 até 6 contêm um quiasma:

A: (2) Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos;
B: (3) Povo que de contínuo me irrita diante da minha face,
C: sacrificando em jardins
D: e queimando incenso sobre altares de tijolos;
E: (4) Que habita entre as sepulturas,
E: e passa as noites junto aos lugares secretos;
D: come carne de porco
C: e tem caldo de coisas abomináveis nos seus vasos;
B: (5) Que dizem: Fica onde estás, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu. Estes são fumaça no meu nariz, um fogo que arde todo o dia.
A: (6) Eis que está escrito diante de mim: não me calarei; mas eu pagarei, sim, pagarei no seu seio.

Neste quiasma o Senhor promete uma dolorosa recompense à rebelde Israel por sua desobediência intencional da Lei Mosaica, representada aqui, por vários pontos marcantes. “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” complementa “Eis que está escrito diante de mim: não me calarei; mas eu pagarei, sim, pagarei no seu seio”.

No versículo 7 o Senhor condena a idolatria de Israel: “As vossas iniquidades, e juntamente as iniquidades de vossos pais, diz o Senhor, que queimaram incenso nos montes, e me afrontaram nos outeiros; assim lhes tornarei a medir as suas obras antigas no seu seio”.[16] O Senhor, no dia da Sua recompensa, restaurará mal por mal e bem por bem. Aqueles que escolheram o mal sentirão uma profunda angústia quando forem julgados. Neste versículo “montes” e “outeiros” significam grandes e pequenas nações;[17] portanto, a blasfêmia condenada pelo Senhor envolve muitas nações.

Nos versículos 8 até 10, o Senhor resolve não destruir completamente Israel, apesar de sua rebelião. O versículo 8 proclama: “Assim diz o Senhor: Como quando se acha mosto num cacho de uvas, dizem: Não o desperdices, pois há bênção nele, assim farei por amor de meus servos, que não os destrua a todos”.[18] O Senhor compara a antiga Israel a um cacho de uvas que está se apodrecendo, mas onde ainda há algumas uvas boas. Os servos, mencionados pelo Senhor, são os antigos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, a quem o Senhor prometeu inumeráveis posteridade.

No versículo 9 o Senhor explica: “E produzirei descendência a Jacó, e a Judá um herdeiro que possua os meus montes; e os meus eleitos herdarão a terra e os meus servos habitarão ali”. Os justos remanescentes de Jacó e Judá serão levantados pelo Senhor, juntados, e herdarão as terras prometidas aos eleitos. A “descendência a Jacó” não é o mesmo que o rebento—que quer dizer Joseph Smith—nem o Tronco de Jessé, que é Cristo—citado no capítulo 11 por Isaías.[19] Como descrito acima no versículo 7, “montes” significa “nações”.

O versículo 10 descreve a restauração de Israel: “E Sarom servirá de curral de rebanhos, e o vale de Acor lugar de repouso de gados, para o meu povo, que me buscou”. Sarom é a planície marítima que se estende desde Carmelo à Jope.[20] O vale de Acor é provavelmente localizado na área oeste de Jericó e leste da cidade canaanita de Ai, localizada a algumas milhas norte de Jerusalém.[21] Estes dois locais descrevem extremos geográficos, abrangendo toda a Terra Prometida. Na época da coligação nos últimos dias a terra prometida seria tipicamente completamente habitada pelos descendentes de Israel.

Os versículos 9 e 10 contêm um quiasma:

A: (9) E produzirei descendência a Jacó,
B: e a Judá um herdeiro que possua os meus montes;
C: e os meus eleitos herdarão a terra
C: e os meus servos habitarão ali.
B: (10) E Sarom servirá de curral de rebanhos, e o vale de Acor lugar de repouso de gados,
A: para o meu povo, que me buscou.

Neste quiasma, o Senhor promete que os remanescentes justos da casa de Jacó herdarão a Palestina nos últimos dias. “Produzirei descendência a Jacó” complementa “para o meu povo, que me buscou”; porque ali permaneceu um remanescente dos justos em Jacó, o Senhor produziria descendência—ou renascimento da nação—de Jacó.

Os versículos 11 até 16 reconta a rebelião e apostasia de Israel, fazendo com que o Senhor escolhesse outros para receberem Suas bênçãos. No versículo 11, o Senhor dirige Sua repreensão à antiga Israel—e, como um exemplo, aos apóstatas gentios dos últimos dias: “Mas a vós, os que vos apartais do Senhor, os que vos esqueceis do meu santo monte, os que preparais uma mesa para a Fortuna, e que misturais a bebida para o Destino”. O significado hebraico de “Fortuna” é Gad, ídolo pagão da fortuna, e o significado de “Destino” é Meni, ídolo pagão do destino.[22] “Meu santo monte” significa o santo templo do Senhor.[23] Ao invés de fazer as ordenanças do templo perante o Senhor em justiça, o povo adorava aos deuses pagãos ou mesmo ao diabo.

No versículo 12 o Senhor descreve as consequências da rebelião de Israel: “Também vos destinareis à espada, e todos vos encurvareis à matança; porquanto chamei, e não respondestes; falei, e não ouvistes; mas fizestes o que era mau aos meus olhos, e escolhestes aquilo em que não tinha prazer”.[24] Israel—e, como exemplo, os gentios apóstatas dos últimos dias—sofrerão morte e massacre por haverem praticado o mal diante do Senhor.

No versículo 13, o Senhor escolhe outros para receber Suas bênçãos: “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que os meus servos comerão, mas vós padecereis fome; eis que os meus servos beberão, porém vós tereis sede; eis que os meus servos se alegrarão, mas vós vos envergonhareis”. O Grande Pergaminho de Isaías apresenta “portanto assim diz o Senhor …”[25] em lugar de “o Senhor DEUS”. “Os meus servos” referem-se àqueles que obedeceram ao Senhor e guardaram Seus mandamentos. Isaías usa de contrastes literários para enfatizar a comparação entre justos e apóstatas.

O versículo 14 continua a comparação, usando outro contraste literário: “Eis que os meus servos exultarão pela alegria de coração, mas vós gritareis pela tristeza de coração; e uivareis pelo quebrantamento de espírito”. Os justos deverão cantar e ter regozijo, enquanto que os injustos chorarão e uivarão.

O versículo 15 resume: “E deixareis o vosso nome aos meus eleitos por maldição; e o Senhor DEUS vos matará; e a seus servos chamará por outro nome”—A Israel rebelde será ferida pela mão do Senhor. Os justos chamar-se-ão por um nome novo, “que a boca do Senhor designará”,[26] enquanto que o nome de Israel tornar-se-á uma maldição.

Os versículos 13 até 15 contêm um quiasma:

A: (13) Portanto assim diz o Senhor DEUS:
B: Eis que os meus servos comerão,
C: mas vós padecereis fome;
B: eis que os meus servos beberão,
C: porém vós tereis sede;
B: eis que os meus servos se alegrarão,
C: mas vós vos envergonhareis;
B: (14) Eis que os meus servos exultarão pela alegria de coração,
C: mas vós gritareis pela tristeza de coração;
D: e uivareis
D: pelo quebrantamento de espírito.
C: (15) E deixareis o vosso nome
B: aos meus eleitos por maldição;
A: e o Senhor DEUS vos matará; e a seus servos chamará por outro nome.

Este quiasma, que usa uma forma escalonada, afirma que os que fazem parte da linhagem do convênio, que não serviram ao Senhor, serão quebrantados de espírito e serão mortos. “Portanto assim diz o Senhor DEUS” complementa “o Senhor DEUS vos matará; e a seus servos chamará por outro nome”. As quatro repetições do segundo elemento (B) no lado ascendente—“Eis que os meus servos comerão”; “eis que os meus servos beberão”; “eis que os meus servos se alegrarão”; e “eis que os meus servos exultarão pela alegria de coração”—comparam-se com “aos meus eleitos”, indicando quem são os que receberão as bênçãos mencionadas. As quatro repetições do terceiro elemento (C) no lado ascendente— “mas vós padecereis fome”; “porém vós tereis sede”; “mas vós vos envergonhareis”; e “mas vós gritareis pela tristeza de coração”—comparam-se com “e deixareis o vosso nome [… por maldição]”, que significa aqueles que escolherem o mal. O enfoque do quiasma é “e uivareis pelo quebrantamento de espírito”.

O versículo 16 continua: “Assim [por outro nome] que aquele que se bendisser na terra, se bendirá no Deus da verdade; e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade; porque já estão esquecidas as angústias passadas, e estão escondidas dos meus olhos”. Nos últimos dias Israel seria purificada e restaurada; os verbos bendizer e jurar significam fazer convênios com o Senhor,[27] nos altares do templo. Com o arrependimento de Israel as bênçãos do Senhor serão restauradas e seus pecados serão perdoados. Como o Senhor declarou em Doutrina e Convênios: “Eis que aquele que se arrependeu de seus pecados é perdoado e eu, o Senhor, deles não mais me lembro”.[28] Jeremias predisse esses mesmos acontecimentos, usando semelhantes palavras: “E não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor; porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados (ênfases adicionadas).[29]

Os versículos 17 até 25 predizem a restauração de Israel e o reinado glorioso do Senhor no Milênio. O versículo 17 declara: “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão”. A Terra será renovada e elevada ao estado terrestrial, e permanecerá neste estado durante o Milênio. A décima Regra de Fé resume:

“Cremos na coligação literal de Israel e na restauração das Dez Tribos; que Sião (a Nova Jerusalém) será construída no continente americano; que Cristo reinará pessoalmente na Terra; e que a Terra será renovada e receberá sua glória paradisíaca”.[30]

O versículo 18 descreve a grande alegria na época destes acontecimentos: “Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para Jerusalém uma alegria, e para o seu povo gozo”. [31] O significado é “eis que eu trago a Jerusalém uma alegria …”.

João o Revelador previu os acontecimentos descritos nos versículos 17 e 18:

“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.
“E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido”.[32]

Os versículos 16 até 18 contêm um quiasma:

A: (16) Assim que aquele que se bendisser na terra, se bendirá no Deus da verdade;
B: e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade;
C: porque já estão esquecidas as angústias passadas,
D: e estão escondidas dos meus olhos.
D: (17) Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra;
C: e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão.
B: (18) Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio;
A: porque eis que crio para Jerusalém uma alegria, e para o seu povo gozo.

Este quiasma prediz uma nova ordem que surgirá nos últimos dias, tomando o lugar da antiga que caiu com a apostasia. “Porque já estão esquecidas as angústias passadas” é o mesmo que “não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão”; e a sentença “estão escondidas [as angústias passadas] dos meus olhos” compara-se com “porque, eis que eu crio novos céus e nova terra”. “Aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade” significa fazer convênios com Deus. Isto é complementado por “mas vós folgareis e exultareis perpetuamente”, que descreve a grande alegria sentida pelos que fazem e guardam convênios sagrados.

O versículo 19 descreve a alegria que o Senhor sentirá por causa da Jerusalém justa: “E exultarei em Jerusalém, e me alegrarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor”. Este versículo consiste de duas declarações paralelas, sinônimas. A equivalência indica que o Senhor chorou por Jerusalém quando esta se encontrava em um estado iníquo—o Senhor é comparado em ambas as frases com a palavra choro. O choro e a voz de clamor cessarão para os habitantes de Jerusalém que foram maltratados devido suas iniquidades. No capítulo 35 Isaías descreveu Sião sentindo a mesma alegria: “E os resgatados do Senhor voltarão; e virão a Sião com júbilo, e alegria eterna haverá sobre as suas cabeças; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido”.[33]

O versículo 20 descreve como, durante o Milênio, os seres humanos viverão mais tempo: “Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o menino morrerá de cem anos; porém o pecador de cem anos será amaldiçoado”. TJS apresenta:

“Naqueles dias não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o menino não morrerá mas viverá até a idade de cem anos; porém o pecador que viver até cem anos será amaldiçoado”.[34]

A expectativa de vida normal de um ser humano será de cem anos. Se os pecadores vivessem tanto tempo assim, suas vidas seriam cheias de sofrimento— a morte precoce é uma misericórdia ao pecador. Em Doutrina e Convênios, o Senhor descreve a morte entre os justos durante o Milênio usando palavras semelhantes: “Nesse dia uma criança não morrerá antes de envelhecer; e sua vida será como a idade de uma árvore. E quando morrer, não dormirá, isto é, na terra, mas será transformada num piscar de olhos e será arrebatada; e seu descanso será glorioso”.[35]

O versículo 21 descreve a paz duradoura: “E edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o seu fruto”. Os exércitos invasores não expulsariam o povo de suas casas; mas o povo teria tempo de colher o que plantaram sem ter suas colheitas pisoteadas ou consumidas por saqueadores. Estas palavras foram usadas com o mesmo significado em Doutrina e Convênios.[36]

O versículo 22 continua a descrição da paz: “Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos”. A paz duradoura prevalecerá; os justos viverão expectativas de vidas normais como descrito no versículo 20, e também desfrutarão dos benefícios de suas obras.

O versículo 23 descreve mais bênçãos: “Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a perturbação; porque são a posteridade bendita do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles”. O significado é que eles não terão filhos debalde (em vão), nem para perturbação, mas sim para receberem as bênçãos do Senhor. Os filhos serão criados por pais justos; eles serão uma bênção para os pais.

LeGrand Richards ensinou:

“Nós sabemos destas coisas, e Isaías disse que, ao chegar esse dia, teremos um novo céu e nova terra, na qual o cordeiro e o leão apascentarão juntos, nós construiremos nossas casas e nela habitaremos, e plantaremos nossas vinhas e comeremos de seus frutos. Não edificaremos para que outro habite, pois todo homem gozará das obras de suas próprias mãos, e são os benditos do Senhor e os seus descendentes com eles”.[37]

No versículo 24, o Senhor promete que responderá rapidamente as orações dos justos: “E será que antes que clamem eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei”. Estas condições prevalecerão entre os justos durante o Milênio. Anteriormente, no capítulo 58, Isaías descreve o desejo do Senhor de responder as orações dos justos: “Então clamarás, e o Senhor te responderá”.[38] É realmente uma grande bênção receber respostas do Senhor às nossas orações.

Os versículos 21 até 24 contêm um quiasma:

A: (21) E edificarão casas,
B: e as habitarão;
A: e plantarão vinhas,
B: e comerão o seu fruto.
A: (22) Não edificarão
B: para que outros habitem;
A: não plantarão
B: para que outros comam;
C: porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore,
C: e os meus eleitos gozarão
B: das obras das suas mãos.
A: (23) Não trabalharão debalde,
B: nem terão filhos para a perturbação;
A: porque são a posteridade bendita do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles.
B: (24) E será que antes que clamem
A: eu responderei;
B: estando eles ainda falando,
A: eu os ouvirei.

Este quiasma, que também exibe uma forma escalonada, declara que devido sua retidão, o Senhor protegerá Seus eleitos das agressões e tribulações, e eles viverão vidas longas e produtivas. As quatro repetições do primeiro elemento (A) no lado ascendente— “edificarão casas”, “plantarão vinhas”, “Não edificarão” e “não plantarão” igualam-se, coletivamente, com as quatro repetições do primeiro elemento (A) no lado descendente— “não trabalharão debalde”, “são a posteridade bendita do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles”, “eu responderei” e “eu os ouvirei”. O lado ascendente enumera as bênçãos temporais, enquanto que o lado descendente enumera as espirituais. As quatro repetições do segundo elemento (B) no lado ascendente— “e as habitarão [casas]”, “e comerão o seu fruto [vinhas]”, “para que outros [não as] habitem” e “para que outros [não as] comam” igualam-se, coletivamente, com as quatro repetições do segundo elemento (B) no lado descendente— “[os meus eleitos gozarão] das obras das suas mãos”, “nem terão filhos para a perturbação”, “será que antes que clamem [eu responderei]” e “estando eles ainda falando [eu os ouvirei]”.

O versículo 25 descreve mais sobre as condições no Milênio: “O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor”. Estas palavras referem-se à profecia de Isaías encontrada no capítulo 11, onde os predadores e suas presas naturais servem como metáforas para as nações historicamente agressoras e suas perpétuas vítimas, para quem o Milênio trará reconciliação.[39] O “santo monte” do Senhor significa as nações da Terra que são fiéis ao Senhor.[40] “Pó será a comida da serpente” apresenta uma nova metáfora— as nações injustas não serão mais permitidas a predarem em suas vítimas. Outro significado pode ser que esteja se referindo a Satanás, que no Jardim do Éden foi amaldiçoado por tentar a Adão e Eva.[41] Durante o Milênio, Satanás será preso, não tendo nenhum poder para tentar os justos.[42]

Estruturalmente, o versículo 25 consiste de dupla declarações paralelas. “O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos” é o mesmo que “o leão comerá palha como o boi”; e “pó será a comida da serpente” é o mesmo que “não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor”. Nações agressoras da antiguidade coexistirão em paz com as suas antigas vítimas.

NOTAS

[1]. Joseph Smith’s “New Translation” of the Bible [“Nova Tradução” da Bíblia por Joseph Smith]: Herald Publishing House, Independence, Missouri, 1970, p. 212.
[2]. 1 Néfi 13:42; Ver também Jacó 5:63; Éter 13:12; D&C 29:30.
[3]. Ver Mateus 19:30; 20:16; Marcos 10:31; Lucas 13:30.
[4]. TJS, p. 212-213.
[5]. Ver Isaías 26:7-8; 28:7; 40:3 e comentário pertinente.
[6]. Romanos 10:20-21.
[7]. Ver Josué 8:30-31; Êxodo 20:24-25.
[8]. Ver Deuteronômio 12:1-6.
[9]. TJS, p. 213.
[10]. F. Brown, S. Driver, e C. Briggs, The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [Léxico Hebraico e Inglês de Brown-Driver-Briggs]: Hendrickson Publishers, Peabody, MA, 01961-3473, 1996, Número de Strong 3427, p. 442.
[11]. Ver Levítico 11:7; Ver também Isaías 66:17.
[12]. Ver Números 19:16.
[13]. Ver Levítico 11:10-23.
[14]. Ver Levítico 11:32-33.
[15]. Donald W. Parry, Jay A. Parry e Tina M. Peterson, Understanding Isaiah [Compreendendo Isaías]: Deseret Book Company, Salt Lake City, Utah, 1998, p. 571.
[16]. Os versículos 6 e 7 contêm um quiasma: Pagarei no seu seio/as vossas iniquidades/diz o Senhor//queimaram incenso/me afrontaram/medir as suas obras antigas no seu seio.
[17]. Ver Isaías 2:2, 14 e 2 Néfi 12:2, 14; Isaías 11:9; 13:2, 4; 30:25 e comentário pertinente.
[18]. O versículo 8 contém um quiasma: Se acha mosto/não o desperdices/pois há bênção nele//assim farei/por amor de meus servos/não os destrua a todos.
[19]. Ver Isaías 11:1.
[20]. Dicionário Bíblico—Sarom.
[21]. Ver Josué 7:24, 26; compare Mapa Bíblico 4.
[22]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1409, p. 151 (Gad); Número de Strong 4487, p. 584 (Meni); Ver também Isaías 65:11, notas de rodapé 11a e 11b.
[23]. Ver Isaías 2:3; 30:29; 56:7; 66:20 e comentário pertinente.
[24]. Os versículos 11 e 12 contêm um quiasma: Vos apartais do Senhor/vos esqueceis do meu santo monte/vos destinareis à espada//todos vos encurvareis à matança/porquanto chamei, e não respondestes/fizestes o que era mau aos meus olhos.
[25]. Donald W. Parry, Harmonizing Isaiah: Foundation for Ancient Research e Mormon Studies (FARMS) at Brigham Young University [A Harmonização de Isaías: Fundação de Pesquisas Antigas e Estudos Mórmons na Universidade Brigham Young], Provo, Utah, 2001, p. 245.
[26]. Ver Isaías 62:2 e comentário pertinente.
[27]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1288, p. 138 (ajoelhar); Ver também Isaías 65:16, notas de rodapé 16a e 16b.
[28]. Doutrina e Convênios 58:42.
[29]. Jeremias 31:34.
[30]. Regras de Fé 1:10.
[31]. O versículo 18 contém um quiasma: Vós folgareis e exultareis/que eu crio//crio/Jerusalém uma alegria. Parry, 2001, p. 265.
[32]. Apocalipse 21:1-2.
[33]. Isaías 35:10.
[34]. TJS, p. 213.
[35]. D&C 101:30-31; Ver também D&C 63:51.
[36]. D&C 101:101.
[37]. LeGrand Richards, “Um Alicerce Para o Milênio,” A Liahona, Agosto de 1972, p. 15.
[38]. Isaías 58:9; compare D&C 101:27.
[39]. Ver Isaías 11:6-7, 9 e comentário pertinente.
[40]. Ver Isaías 2:2, 14 e 2 Néfi 12:2, 14; Isaías 11:9; 13:2, 4; 30:25; 66:20 e comentário pertinente.
[41]. Ver Gênesis 3:14; Moisés 4:20.
[42]. Ver Apocalipse 20:2; D&C 43:31; 45:55; 84:100; 88:110.

CAPÍTULO 64: “Não Se Ouviu … Nem Com Os Olhos Se Viu Um Deus Além De Ti Que Trabalhe Para Aquele Que Nele Espera”

No capítulo 64 o profeta Isaías ora pela Segunda Vinda do Senhor e pela salvação de Israel. Em sua oração ele cita destruições calamitosas que acompanharão o retorno do Senhor, as quais varrerão os iníquos da face da Terra. Isaías reconhece as iniquidades de Israel; ele ora para que o povo se arrependa e que a misericórdia do Senhor recaia sobre ele, de acordo com o Convênio Abraâmico. Os temas deste capítulo são citados frequentemente em Doutrina e Convênios, onde encontramos informações adicionais. A oração do capítulo 64 começa nos últimos cinco versículos do capítulo 63.

Nos versículos 1 até 3, Isaías invoca ao Senhor para que ponha em marcha os acontecimentos que culminariam o Seu glorioso retorno. O versículo 1 começa: “Oh! se fendesses os céus, e descesses, e os montes se escoassem de diante da tua face”. Fender os céus significa romper o véu para que Deus possa ser visto pelos homens mortais.[1] Grandes destruições, representadas neste versículo pelo escoar dos montes, acompanharão a Segunda Vinda do Senhor.

Em Doutrina e Convênios, as palavras do versículo 1 referem-se a quando os servos do Senhor nos últimos dias “[clamarem] ao nome do Senhor dia e noite, dizendo: Oh! Que fendas os céus; que desças; que os montes se escoem diante de tua face!”.[2]

O versículo 2 continua: “Como o fogo abrasador de fundição, fogo que faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários, e assim as nações tremessem da tua presença!” As destruições por fogo na época da Segunda Vinda do Senhor é um tema frequente na obra de Isaías.[3] Através destas destruições o nome do Senhor seria conhecido entre os iníquos, por causa de Seu poder de destruir; enquanto que os justos já conhecem Seu nome devido ao seu poder de salvar.

Novamente em Doutrina e Convênios, é revelado que o fogo ardente seria causado pela presença do Senhor: “… a presença do Senhor será como o fogo de fundição que queima e como o fogo que faz ferver as águas” (ênfases adicionadas).[4]

Em Sua descrição dos acontecimentos preditos ao Profeta Joseph Smith, o Senhor atestou que todas as nações estremeceriam em Sua vinda: “Pois eis que em verdade, em verdade eu te digo: Aproxima-se o tempo em que virei em uma nuvem, com poder e grande glória. E será um grande dia a hora de minha vinda, porque todas as nações estremecerão”.[5]

O versículo 3 conclui: “Quando fazias coisas terríveis, que nunca esperávamos, descias, e os montes se escoavam diante da tua face”.[6] Os montes se escoarão ao derreter diante do ardente fogo da vinda do Senhor; o uso do verbo no passado reflete o fato de que Isaías teve uma visão destes acontecimentos. Os montes, ou nações da Terra, estremeceriam ao ver as obras maravilhosas do Senhor.[7] “Coisas terríveis” significam coisas que provocam terror nos corações dos iníquos.

Os versículos 4 e 5 descrevem a bondade do Senhor para com os justos. O versículo 4 atesta: “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera”.

O Apóstolo Paulo cita versículo 4 em sua primeira carta aos Coríntios: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam”.[8]

As palavras destes versículos foram também citadas em várias partes em Doutrina e Convênios, onde mais detalhes foram adicionados:

“Ó Senhor, tu descerás para tornar conhecido teu nome a teus adversários; e todas as nações tremerão em tua presença—
“Quando fizeres coisas terríveis, coisas que eles não esperam;
“Sim, quando desceres e as montanhas se escoarem em tua presença, encontrarás aquele que se regozija e pratica justiça, que se lembra de ti em teus caminhos.
“Pois desde o princípio do mundo homem algum ouviu nem percebeu pelo ouvido, nem olho algum viu, ó Deus, além de ti, quão grandiosas são as coisas que preparaste para aquele que espera por ti.”[9]

O Senhor revelou ao Profeta Joseph Smith que é o Espirito Santo que ilumina as mentes daqueles que O buscam: “Porque pelo meu Espírito os iluminarei e pelo meu poder dar-lhes-ei a conhecer os segredos de minha vontade—sim, até as coisas que o olho não viu nem o ouvido ouviu e ainda não entraram no coração do homem” (ênfases adicionadas).[10]

No Livro de Mórmon, os nefitas justos testemunharam a visitação do Senhor ressuscitado, Jesus Cristo, e ouviram as palavras da oração proferida por Ele ao Pai a favor de Seu povo. Eles testificaram usando palavras semelhantes às de Isaías:

“E desta forma testemunham: Os olhos jamais viram e os ouvidos jamais ouviram, até agora, coisas tão grandes e maravilhosas como as que vimos e ouvimos Jesus dizer ao Pai;
“E não há língua que possa expressar nem homem que possa escrever nem pode o coração dos homens conceber coisas tão grandes e maravilhosas como as que vimos e ouvimos Jesus dizer; e ninguém pode calcular a extraordinária alegria que nos encheu a alma na ocasião em que o vimos orar por nós ao Pai (ênfases adicionadas).”[11]

Este evento sagrado é um exemplo dos acontecimentos que ocorrerão depois da Segunda Vinda do Senhor, predito aqui por Isaías.

O versículo 5 resume: “Saíste ao encontro daquele que se alegrava e praticava justiça e dos que se lembram de ti nos teus caminhos; eis que te iraste, porque pecamos; neles há eternidade, para que sejamos salvos?”. A Tradução de Joseph Smith (TJS) apresenta “Saíste ao encontro daquele que praticava a retidão, e alegrou aquele que se lembra de ti nos teus caminhos. Na retidão há continuidade, e tal será salvo”. TJS omite “eis que te iraste, porque pecamos” do versículo 5 e usa palavras semelhantes no começo do versículo 6: “Mas temos pecado: todos nós somos como o imundo …”.[12]

Os justos receberão o retorno do Senhor com grande alegria. Isaías reconhece, entretanto, que o povo está num estado de apostasia e que por isso o Senhor está irado com ele. “Continuidade” implica fidelidade continua ao Convênio Abraâmico; Isaías tem fé de que o povo se arrependerá, continuará fiel ao seus convênios e será salvo, devido as promessas feitas a Abraão.[13] “Saíste ao encontro” foi traduzido de uma palavra hebraica que significa “interceder por”.[14] Os justos seriam salvos da destruição apesar de suas imperfeições, através da intercessão do Senhor, que se fez possível através de Sua Expiação.

Os versículos 6 e 7 descrevem o estado impuro de Israel. No versículo 6 Isaías confessa: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades como um vento nos arrebatam”. TJS insere “Mas temos pecado” no começo do versículo, substituindo pela semelhante expressão omitida no versículo 5.[15] As melhores tentativa de retidão de Israel são como trapos da imundícia quando comparado ao Senhor e Sua justiça. A iniquidade do povo resultou em seu afastamento dos caminhos do Senhor.

Os versículos 4 até 6 contêm um quiasma, esclarecido pelas palavras da TJS:

A: (4) Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti
B: que trabalha para aquele que nele espera.
C: (5) Saíste ao encontro [ou, intercedeste por] daquele que pratica retidão,
C: e alegrou aqueles que se lembram de ti nos teus caminhos;
B: Na retidão há continuidade, e tal será salvo.
A: [6] Mas temos pecado: todos nós somos como o imundo ….

O tema do quiasma dos versículos 4 e 5 é que o conhecimento das grandes coisas preparadas pelo Senhor para os justos foram retidas desde o começo do mundo por causa de iniquidades. “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu” corresponde à frase “Mas temos pecado: todos nós somos como o imundo …”. Em outras palavras, o Senhor em Sua ira contra os iníquos, reteve o conhecimento das grandes bênçãos reservadas para os justos. O Senhor intercederá por aquele “que pratica retidão”, e lhe trará grande alegria aos “que se lembram [dele] nos [Seus] caminhos”. Apesar de suas imperfeições, os justos serão salvos da destruição por causa da intervenção do Senhor, através da continuidade (continuação) das bênçãos prometidas a Abraão.

O versículo 7 reconhece: “E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas; porque escondes de nós o teu rosto, e nos fazes derreter, por causa das nossas iniqüidades”. Aqui, Isaías lamenta sobre o ciclo vicioso que aprisiona os ímpios. Devido suas iniquidades, ninguém clama no nome do Senhor nem se esforçam para melhorar; consequentemente, o Senhor esconde deles o Seu rosto e eles não conhecem o Senhor.

Os versículos 6 e 7 contêm um quiasma:

A: (6) Mas temos pecado: todos nós somos como o imundo,
B: e todas as nossas justiças como trapo da imundícia;
C: e todos nós murchamos como a folha,
D: e as nossas iniqüidades
E: como um vento
E: nos arrebatam.
D: (7) E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas;
C: porque escondes de nós o teu rosto,
B: e nos fazes derreter,
A: por causa das nossas iniqüidades.

Este quiasma ensina que as melhores das nossas justiças são imundícias comparadas à justice do Senhor, e servimos somente para sermos queimados. “Todos nós somos como o imundo” é complementado por “por causa das nossas iniqüidades”. “Todas as nossas justiças como trapo da imundícia” é complementado por “nos fazes derreter”; e “como um vento” complementa “nos arrebatam”, que significa que quando o povo rejeita o Senhor eles são levados em roda por todo o vento de doutrina,[16] e o Senhor esconde deles o Seu rosto.

O versículo 8 reconhece o Senhor como Pai e Criador: “Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos”.[17] A obra do oleiro requer duas mãos na roda giratória. A metáfora do Senhor como o oleiro e a humanidade como barro expressa que a obra do Senhor, com relação a nós, ainda não está terminada, inclusive a obra de perfeição que ainda está por vir.

Russell M. Nelson testificou:

“Nossa identidade é mais do que uma fotografia num passaporte. Temos raízes e ramos. A divindade está enraizada em cada um de nós. “Todos nós [somos] a obra das mãos [de nosso Criador].” Somos seres eternos. Na vida pré-mortal, fomos preordenados para nossas responsabilidades no sacerdócio. Antes da fundação do mundo, as mulheres foram preparadas para terem filhos e glorificarem a Deus.”[18]

Mary Ellen Smoot, da Presidência Geral da Sociedade de Socorro, citou e explicou o versículo 8:

“Como santos dos últimos dias, oro para que tratemos dos assuntos de nosso Pai e criemos algo mais de nossa vida. Seja qual for a situação podemos orar como Isaías: ‘… ó Senhor, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro: e todos nós a obra das tuas mãos.’  Que nosso trabalho e glória reflitam o do Pai. Essa é minha humilde oração …”.[19]

No versículo 9, Israel invoca pela misericórdia do Senhor: “Não te enfureças tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te lembres da iniqüidade; olha, pois, nós te pedimos, todos nós somos o teu povo”. Isaías demonstra sua esperança perante o Senhor de que o povo voltaria aos caminhos do Senhor e seria aceito por Ele. Em Doutrina e Convênios, o Senhor prometeu: “Eis que aquele que se arrependeu de seus pecados é perdoado e eu, o Senhor, deles não mais me lembro”.[20]

Nos versículos 10 até 12, Isaías descreve a desolação das formosas cidades de Israel e invoca pela misericórdia do Senhor. O versículo 10 prediz: “As tuas santas cidades tornaram-se um deserto; Sião está feita um deserto, Jerusalém está assolada”. Isaías prevê a apostasia, através da qual as doutrinas de salvação do evangelho ficariam perdidas. Os habitantes de Jerusalém seriam dispersos por todas as nações. “Sião” foi usado aqui por Isaías como sinônimo para Jerusalém.[21]

O versículo 11 declara: “A nossa santa e gloriosa casa, em que te louvavam nossos pais, foi queimada a fogo; e todas as nossas coisas preciosas se tornaram em assolação”. Isaías prevê a destruição do templo em 587 a.C., que marcou Jerusalém por centenas de anos, devido a apostasia. A perda do templo reduziu a oportunidade de Israel a praticar sua religião.[22] A destruição do templo é um exemplo para a destruição do mundo apóstata pelo fogo.[23]

O versículo 12 implora: “Conter-te-ias tu ainda sobre estas coisas, ó Senhor? Ficarias calado, e nos afligirias tanto?”[24] Isaías invoca pela misericórdia do Senhor—que Ele reteria a punição para prover uma oportunidade para o arrependimento.
NOTAS

[1]. Donald W. Parry, Jay A. Parry e Tina M. Peterson, Understanding Isaiah [Compreendendo Isaías]: Deseret Book Company, Salt Lake City, Utah, 1998, p. 564.
[2]. Doutrina e Convênios 133:40.
[3]. Ver Isaías 1:7, 28; 47:14; 64:11; 66:15-16 e comentário pertinente.
[4]. D&C 133:41.
[5]. D&C 34:7-8.
[6]. Os versículos 1 até 3 contêm um quiasma: Os montes se escoassem de diante da tua face/o fogo abrasador de fundição, fogo que faz ferver as águas/fazeres notório o teu nome//as nações tremessem da tua presença/fazias coisas terríveis/os montes se escoavam diante da tua face.
[7]. Ver Isaías 2:2, 14 e 2 Néfi 12:2, 14; Isaías 11:9; 13:2, 4; 30:25 e comentário pertinente.
[8]. 1 Coríntios 2:9.
[9]. D&C 133:42-45; Ver também D&C 138:52.
[10]. D&C 76:10; Ver também versículos 114-119.
[11]. 3 Néfi 17:16-17.
[12]. Joseph Smith’s “New Translation” of the Bible [“Nova Tradução” da Bíblia por Joseph Smith]: Herald Publishing House, Independence, Missouri, 1970, p. 212.
[13]. Ver Gênesis 22:16-18.
[14]. Brown et al., 1996, Número de Strong 6293, p. 803.
[15]. TJS, p. 212.
[16]. Ver Efésios 4:14.
[17]. O versículo 8 contém um quiasma: Tu és nosso Pai/barro//o nosso oleiro/todos nós a obra das tuas mãos.
[18]. Russell M. Nelson, “Raízes e Ramos,” A Liahona, Maio de 2004, p. 27-29.
[19]. Mary Ellen Smoot, “Somos Criadores”, A Liahona, Julho de 2000, p. 78.
[20]. D&C 58:42; Ver também Hebreus 8:12; 10:17.
[21]. Ver Isaías 1:8 e comentário pertinente. Ver também Salmos 102:13, 16; 129:5; 132:13; Isaías 2:3; 4:5; 14:32; 24:23; 28:16; 31:9; 35:10.
[22]. Parry et al., 1998, p. 567.
[23]. Ver referências for versículos 1 e 2.
[24]. Os versículos 9 até 12 contêm um quiasma: Não te enfureças tanto/te pedimos/as tuas santas cidades tornaram-se um deserto//a nossa santa e gloriosa casa, em que te louvavam nossos pais, foi queimada a fogo/conter-te-ias tu ainda sobre estas coisas/nos afligirias tanto.

CAPÍTULO 63: “Quem É Este, Que Vem De Edom, De Bozra, Com Vestes Tintas …?”

Para ver os comentários de cada capítulo de Isaías, bem como cada introdução, desça até encontrar, à direita, uma lista de todos os capítulos sob a seção “Categorias”. Clique no capítulo que deseja ler. ===>

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O capítulo 63 descreve a gloriosa Segunda Vinda do Senhor Jesus Cristo. Será um dia de vingança, quando o Senhor colocará Seus inimigos debaixo de Seus pés. As vestes do Senhor serão tingidas de vermelho, como se fosse o sangue de Seus inimigos que se opuseram a Ele em Edom, Bozra, e outros lugares. A aparência do Senhor será tão gloriosa que o sol, a lua, e as estrelas esconderão sua luz em vergonha. O capítulo termina com Isaías invocando ao Senhor pela restauração das tribos de Israel ao seu estado original de retidão e às terras de sua herança.

Os versículos 1 até 6 descrevem a aparência gloriosa do Senhor vestido com um manto vermelho na Sua Segunda Vinda. Isaías faz perguntas, que em seguida são respondidas pelo Senhor. No versículo 1 Isaías pergunta: “Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes tintas; este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força?” O Senhor responde: “Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar”. Não obstante Seu maravilhoso poder de destruir—manifestado pelo Seu manto vermelho-sangue e Ele vindo de lugares de grandes massacres em Edom e Bozra—o maior poder do Senhor está em Sua justiça e em Sua capacidade para salvar.

Edom é o sobrenome dado a Esaú, filho de Isaque e Rebeca, e irmão gêmeo de Jacó.[1] O nome foi dado devido Esaú, o primogênito, ter sido “o primeiro ruivo e todo como um vestido de pêlo”;[2] Edom significa “ruivo”.[3] Este nome também aplica-se aos descendentes de Edom e às terras de sua herança.[4] Os descendentes modernos de Esaú são os Árabes. Bozra era a capital de Edom, a sudeste do Mar Morto. Este nome significa “forte” ou “redil”.[5] Também é o nome de uma cidade em Moabe e de uma cidade moderna, Basra, no Iraq.

Jeremias também previu a destruição de Bozra pelo Senhor: “Porque por mim mesmo jurei, diz o Senhor, que Bozra servirá de espanto, de opróbrio, de assolação, e de maldição; e todas as suas cidades se tornarão em desolações perpétuas”.[6]

No capítulo 34 Isaías dá detalhes sobre os acontecimentos preditos, citando as palavras do Senhor: “Porque a minha espada se embriagou nos céus; eis que sobre Edom descerá, e sobre o povo do meu anátema para exercer juízo”.[7] Compare a semelhante declaração feita pelo Senhor em Doutrina e Convênios: “E a ira do Senhor está acesa e sua espada está lavada nos céus e sobre os habitantes da Terra cairá”.[8]

“O povo do meu anátema” refere-se especialmente a Edom, mas também significa povos pelo mundo todo que se rebelaram contra o Senhor e Seu povo, não tendo nenhum respeito pelos Seus mandamentos. “Anátema” significa “condenado”. As terras de Edom são chamadas de “Iduméia”, cujo significado é mais amplo também. O Senhor apresenta este significado mais amplo em Doutrina e Convênios: “E também o Senhor terá poder sobre seus santos e reinará em seu meio e descerá para julgar Iduméia, ou seja, o mundo”.[9]

No versículo 2, Isaías apresenta outra pergunta ao Senhor: “Por que está vermelha a tua vestidura, e as tuas roupas como as daquele que pisa no lagar?” Um “lagar” é um recipiente grande onde as uvas são esmagadas com os pés, a fim de extrair o suco.

No versículo 3, o Senhor responde: “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo; e os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura”. O Senhor, agindo sozinho, realizou a Expiação; semelhantemente, sozinho Ele destruirá os Seus inimigos. Na época do maior sofrimento do Senhor no Jardim do Getsêmani, o Seu “suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”.[10] Na Sua Segunda Vinda as vestes do Senhor serão, novamente, manchadas com sangue—desta vez, o sangue daqueles que desprezaram Seu infinito sacrifício devido ao orgulho e à iniquidade.

Os versículos 1 até 3 contêm um quiasma:

A: (1) Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes tintas;
B: este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força?
C: Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar.
D: (2) Por que está vermelha a tua vestidura,
D: e as tuas roupas como as daquele que pisa no lagar?
C: (3) Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo;
B: e os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor;
A: e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura.

“Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes tintas[?]” é complementado por “o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura”. O sangue dos que forem destruídos, de Edom e de Bozra, mancharão as vestes do Senhor na Sua Segunda Vinda. O manto vermelho significará tanto a vingança do Senhor ao destruir os ímpios quanto o derramamento de Seu próprio sangue, através do qual Ele realizou a Expiação.

O versículo 4 continua a explicação do Senhor: “Porque o dia da vingança estava no meu coração; e o ano dos meus remidos é chegado”. O dia da vingança do Senhor sobre os iníquos significa o começo do reinado do Senhor sobre Seus remidos na Terra. Aqueles que perecerem na Segunda Vinda do Senhor estarão recebendo a recompensa justa por sua rebeldia.

As perguntas e respostas nos versículos 1 até 4 são explicadas em Doutrina e Convênios; as diferenças foram ressaltadas em itálico:

“E dir-se-á: Quem é este que vem de Deus, no céu, com vestes tingidas; sim, das regiões desconhecidas, vestido com seu traje glorioso, andando na grandiosidade de sua força?
“E ele dirá: Eu sou o que fala com justiça, que tem poder para salvar.
“E o Senhor estará vestido de vermelho e suas vestes serão como a do que pisa no lagar de vinho.
“E tão grandiosa será a glória de sua presença, que o sol esconderá a face de vergonha e a lua reterá sua luz e as estrelas serão arremessadas de seus lugares.
“E ouvir-se-á sua voz: Eu sozinho pisei no lagar e sobre todos os povos trouxe julgamento; e ninguém estava comigo;
“E esmaguei-os no meu furor e pisei-os em minha ira e seu sangue salpiquei em minhas vestes e manchei toda a minha vestidura; pois esse era o dia da vingança que estava em meu coração.”[11]

As descrições da destrutiva vingança do Senhor e Ele pisando no lagar sozinho nos versículos 1 até 4 serviram como inspiração para o Hino de Julia Ward Howe, “Já Refulge a Glória Eterna”. [12]

No versículo 5, o Senhor atesta que somente Ele teria poder para tal destruição: “E olhei, e não havia quem me ajudasse; e admirei-me de não haver quem me sustivesse, por isso o meu braço me trouxe a salvação, e o meu furor me susteve”. A salvação veio por meio do Senhor agindo sozinho; semelhantemente, a destruição dos iníquos virá por meio do Senhor agindo sozinho, através do Seu furor.

O versículo 6 descreve a ira do Senhor: “E atropelei os povos na minha ira, e os embriaguei no meu furor; e a sua força derrubei por terra”. O Senhor derrotará várias nações poderosas, derrubando-as por terra. Atropelar os povos—fazendo com que fiquem embriagados com a ira do Todo-Poderoso—é uma continuação da referência ao Senhor pisando o lagar sozinho.

Isaías, no capítulo 25, descreveu, vividamente, o Senhor destruindo as nações iníquas: “E estenderá as suas mãos por entre eles, como as estende o nadador para nadar; e abaterá a sua altivez com as ciladas das suas mãos”.[13] O Senhor destruirá o orgulho do ímpio, bem como suas riquezas e bens materiais.

Os versículos 4 até 6 contêm um quiasma:

A: (4) Porque o dia da vingança estava no meu coração; e o ano dos meus remidos é chegado.
B: (5) E olhei, e não havia quem me ajudasse; e admirei-me de não haver quem me sustivesse,
C: por isso o meu braço me trouxe a salvação,
C: e o meu furor me susteve.
B: (6) E atropelei os povos na minha ira, e os embriaguei no meu furor;
A: e a sua força derrubei por terra.

“Porque o dia da vingança estava no meu coração; e o ano dos meus remidos é chegado” é complementado por “a sua força derrubei por terra”; o dia da vingança do Senhor será quando Ele derrotar as forças militares dos iníquos. “Não havia quem me ajudasse” é explicado pela frase “atropelei os povos na minha ira”. O Senhor realizou a Expiação por Si mesmo, sozinho; Seu triunfo sobre os iníquos também será realizado por Si mesmo, sozinho.

Nos versículos 7 até 9, Isaías descreve a grande bondade que o Senhor tem demonstrado à casa de Israel. O versículo 7 começa: “7 As benignidades do Senhor mencionarei, e os muitos louvores do Senhor, conforme tudo quanto o Senhor nos concedeu; e grande bondade para com a casa de Israel, que usou com eles segundo as suas misericórdias, e segundo a multidão das suas benignidades”. Isaías, aqui, usa um contraste literário, comparando a grande ira do Senhor ao destruir os iníquos, como descrita nos versículos 1 até 6, com Sua imensurável benevolência ao realizar a Expiação pela qual todos podem ser salvos, juntamente com a coligação e redenção de Israel. Neste contraste literário, os opostos são comparados a fim de acentuar na mente do leitor tanto a gravidade da destruição quanto a infinita benevolência e justiça do Senhor para com Seu povo.[14]

O versículo 7 contém um quiasma:

A: (7) As benignidades do Senhor mencionarei,
B: e os muitos louvores do Senhor,
C: conforme tudo quanto o Senhor nos concedeu;
D: e grande bondade para com a casa de Israel,
C: que usou com eles
B: segundo as suas misericórdias,
A: e segundo a multidão das suas benignidades.

Como foi ilustrado neste quiasma, a maior bondade expressada à casa de Israel pelo Senhor é digna do grande louvor do Seu povo. “As benignidades do Senhor mencionarei” corresponde à “segundo a multidão das suas benignidades”.

O versículo 8 continua: “Porque dizia: Certamente eles são meu povo, filhos que não mentirão; assim ele se fez o seu Salvador”. A graça salvadora do Senhor é dirigida a Seu povo—àqueles que têm sido fiéis a Ele, e que têm sido verdadeiros e honestos.

O versículo 9 resume: “Em toda a angústia deles ele foi angustiado, e o anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor, e pela sua compaixão ele os remiu; e os tomou, e os conduziu todos os dias da antiguidade”.[15] O Senhor tomou sobre Si as dores e sofrimentos do Seu povo de todas as eras. A Expiação é eficaz para todas as eras desde os tempos dos antigos profetas até a Segunda Vinda do Senhor.[16]

Em Doutrina e Convênios o Senhor explicou mais sobre o versículo 9, esclarecendo quem o Senhor conduziu todos os dias da antiguidade:

“Em todas as suas aflições ele afligiu-se. E o anjo de sua presença salvou-os; e, em seu amor e em sua piedade redimiu-os e sustentou-os e carregou-os em todos os dias da antigüidade;
“Sim, e também Enoque e os que estavam com ele; os profetas que existiram antes dele; e também Noé e os que existiram antes dele; e também Moisés e os que existiram antes dele;
“E de Moisés a Elias, o profeta, e de Elias a João, os quais estavam com Cristo em sua ressurreição; e os santos apóstolos, com Abraão, Isaque e Jacó, estarão na presença do Cordeiro.”[17]

Aqui se deixa claro que Jeová, que sustentou e conduziu os profetas e os justos dos tempos antigos, é o Senhor Jesus Cristo que deu Sua vida na cruz e trouxe a ressurreição.

Também, em Doutrina e Convênios, o Senhor deu uma maior descrição dos acontecimentos na época da Sua Segunda Vinda:

“Então o braço do Senhor descerá sobre as nações.
“E então o Senhor assentará o pé sobre este monte e ele será fendido pelo meio; e a Terra tremerá e vacilará de um lado para outro e os céus também estremecerão.
“E o Senhor fará soar sua voz e todos os confins da Terra ouvi-la-ão; e as nações da Terra prantearão e os que riram verão sua insensatez.
“E calamidade cobrirá o desdenhador e o escarnecedor será consumido; e os que tiverem procurado a iniqüidade serão cortados e lançados no fogo.
“E então os judeus irão olhar para mim e dizer: Que feridas são essas em tuas mãos e em teus pés?
“Aí saberão que eu sou o Senhor, pois dir-lhes-ei: Estas são as feridas com que fui ferido na casa de meus amigos. Eu sou aquele que foi levantado. Eu sou Jesus, que foi crucificado. Eu sou o Filho de Deus.”[18]

João, o Revelador, também testificou sobre estes acontecimentos:

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.
“E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo.
“E estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus.
“E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro.
“E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso.
“E no manto e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores.”[19]

O versículo 10 descreve a rebelião de Israel contra o Senhor: “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles”.[20] Ao invés de dar-lhe amor e compaixão, o Senhor—por causa da rebeldia e iniquidade do povo—feriu-o e puniu-o, retirando as bênçãos da salvação.

Os versículos 11 até 14 reconta a libertação de Israel da escravidão no Egito, sua passagem miraculosa pelo Mar Vermelho, em chão seco, e sua entrada segura na Terra Prometida. O versículo 11 começa com o Senhor fazendo uma série de perguntas retóricas: “Todavia se lembrou dos dias da antiguidade, de Moisés, e do seu povo, dizendo: Onde está agora o que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está o que pôs no meio deles o seu Espírito Santo?” O Senhor, com estas perguntas, indaga, “Por que o povo já não merece mais que Deus o conduza, como Ele fez nos tempos antigos?”

O versículo 12 continua as perguntas retóricas: “Aquele cujo braço glorioso ele fez andar à mão direita de Moisés, que fendeu as águas diante deles, para fazer para si um nome eterno?” O Senhor atesta que Ele dirigiu Moisés e os filhos de Israel pelas águas do Mar Vermelho.

O versículo 13 continua: “Aquele que os guiou pelos abismos, como o cavalo no deserto, de modo que nunca tropeçaram?”[21] O Senhor guiou, cuidadosamente, os filhos de Israel pelo Mar Vermelho e mais além, guiando-os no tempo de tribulações encontradas no deserto. O símile do cavalo no deserto que nunca tropeça descreve a proteção e o cuidado do Senhor para com seu povo.

O versículo 14 conclui: “Como o animal que desce ao vale, o Espírito do Senhor lhes deu descanso; assim guiaste ao teu povo, para te fazeres um nome glorioso”. O Senhor guiou os filhos de Israel à Terra Prometida, varrendo de seus caminhos os povos que habitavam estas terras.

Nos versículos 15 e 16, Isaías implora as bênçãos do Senhor sobre Israel. O versículo 15 diz: “Atenta desde os céus, e olha desde a tua santa e gloriosa habitação. Onde estão o teu zelo e as tuas obras poderosas? A comoção das tuas entranhas, e das tuas misericórdias, detém-se para comigo?” As perguntas retóricas não estão sugerindo dúvidas acerca da habilidade do Senhor de interceder a favor de Israel; pelo contrário, elas buscam agradecer ao Senhor por Suas bênçãos oferecidas sobre o povo no passado e Sua promessa de uma intervenção semelhante no futuro.

O versículo 16 conclui: “Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome”. Apesar de poderem ser negados por Abraão e Israel, devido suas transgressões, o profeta implora ao Senhor para que reconheça a todos como Seus filhos—beneficiários da Expiação e capazes de arrependerem-se.

Nos versículos 17 até 19, o profeta Isaías implora que o Senhor restaure Israel às suas terras de herança e reconheça o povo de Israel como Seu povo. O versículo 17 começa: “Por que, ó Senhor, nos fazes errar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que não te temamos? Volta, por amor dos teus servos, às tribos da tua herança”.[22] A Tradução de Joseph Smith apresenta “… nos sofreste errar dos teus caminhos?”.[23] Isaías pergunta porque o Senhor permitiu os filhos de Israel saírem de Seu caminho. Mas o extravio do caminho do Senhor foi por própria escolha do povo, pois foi-lhes dado o arbítrio.[24] Isaías, então, implora que as tribos de Israel sejam restauradas como uma herança do Senhor.

Os versículos 15 até 17 contêm um quiasma:

A: (15) Atenta desde os céus, e olha desde a tua santa e gloriosa habitação.
B: Onde estão o teu zelo e as tuas obras poderosas? A comoção das tuas entranhas, e das tuas misericórdias, detém-se para comigo?
C: (16) Mas tu és nosso Pai,
D: ainda que Abraão não nos conhece,
D: e Israel não nos reconhece;
C: tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome.
B: (17) Por que, ó Senhor, nos sofreste errar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que não te temamos?
A: Volta, por amor dos teus servos, às tribos da tua herança.

Embora, devido a sua longa dispersão e separação, não sejam reconhecidos como filhos do convênio, Isaías implora ao Senhor que intervenha a favor de Seu povo, que restaure o conhecimento de sua herança entre ele. “Atenta desde os céus, e olha desde a tua santa e gloriosa habitação” compara-se com “volta, por amor dos teus servos, às tribos da tua herança”.

O versículo 18 continua o apelo de Isaías: “Só por um pouco de tempo o teu santo povo a possuiu; nossos adversários pisaram o teu santuário”. O povo do convênio havia tomado posse da terra de sua herança por pouco tempo, quando seus inimigos profanaram o templo sagrado. Isaías apresenta este caso para que o Senhor intervenha.

O versículo 19 conclui: “Somos feitos como aqueles sobre quem tu nunca dominaste, e como os que nunca se chamaram pelo teu nome”. Embora os descendentes de Israel sejam o povo do convênio do Senhor, eles têm se tornado como seus inimigos que nunca foram chamados pelo nome do Senhor.[25] Isaías resume seu apelo pela restauração de Israel às suas Terras Prometidas.
NOTAS

[1]. Ver Gênesis 25:21-34.
[2]. Gênesis 25:25.
[3]. Ver Gênesis 25:30.
[4]. Dicionário Bíblico—Edom.
[5]. F. Brown, S. Driver, e C. Briggs, The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [Léxico Hebraico e Inglês de Brown-Driver-Briggs]: Hendrickson Publishers, Peabody, MA, 01961-3473, 1996, Número de Strong 1224, p. 131.
[6]. Jeremias 49:13.
[7]. Isaías 34:5.
[8]. Doutrina e Convênios 1:13.
[9]. D&C 1:36.
[10]. Lucas 22:44; Ver também Mosias 3:7; D&C 19:18.
[11]. D&C 133:46-51.
[12]. Hinos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1990 (Português), Hino número 180, “Já Refulge a Glória Eterna”, estrofe 1.
[13]. Isaías 25:11.
[14]. Ver Isaías 32:1-2; 53:5; 60:2 e comentário pertinente.
[15]. O versículo 9 contém um quiasma: A angústia deles/os salvou/seu amor//sua compaixão/os remiu/os conduziu.
[16]. Ver Enos 1:4-8.
[17]. D&C 133:53-55.
[18]. D&C 45:47-52; Ver também Zacarias 13:6.
[19]. Apocalipse 19:11-16.
[20]. O versículo 10 contém um quiasma: Eles foram rebeldes/Espírito Santo//tornou em inimigo/pelejou contra eles.
[21]. Os versículos 11 até 13 contêm um quiasma: Moisés, e do seu povo/os fez subir do mar/Espírito Santo/à mão direita de Moisés//fendeu as águas/nome eterno/os guiou pelos abismos/cavalo no deserto.
[22]. Os versículos 15 até 17 contêm um quiasma: Atenta desde os céus/teu zelo e as tuas obras poderosas/tu és nosso Pai/Abraão não nos conhece//Israel não nos reconhece/tu, ó Senhor, és nosso Pai/por que, ó Senhor, nos sofreste errar/volta, por amor dos teus servos, às tribos da tua herança.
[23]. Joseph Smith’s “New Translation” of the Bible [“Nova Tradução” da Bíblia por Joseph Smith]: Herald Publishing House, Independence, Missouri, 1970, p. 212.
[24]. Ver D&C 29:36; 93:31; 101:78; Moisés 4:3; 7:32.
[25]. Ver Isaías 62:2 e comentário pertinente.

CAPÍTULO 62: “E Chamar-te-ão Por Um Nome Novo, Que A Boca Do Senhor Designará”

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No capítulo 62 Isaías declara que ele não ficará calado nem descansará até que a coligação de Israel e o estabelecimento de Sião nos últimos dias ocorram. Os primeiros 9 versículos, juntamente com os últimos 2 versículos do capítulo 61, contém um cântico de salvação narrado por Isaías,[1] com Isaías falando pelo Senhor. Os guardas de Sião, ou seja, os líderes eclesiásticos, ensinarão diligentemente o evangelho e retidão ao povo. Os trabalhadores de Sião desfrutarão dos resultados de seus labores; Sião tornar-se-á um povo procurado e não desamparado.

O versículo 1, narrado pelo profeta Isaías, começa: “Por amor de Sião não me calarei, e por amor de Jerusalém não me aquietarei, até que saia a sua justiça como um resplendor, e a sua salvação como uma tocha acesa”. Sião e Jerusalém, depois do reestabelecimento das mesmas pelos descendentes justos de Israel nos últimos dias, serão grandemente abençoadas.

Isaías levantou a sua voz diligentemente durante toda sua vida—e sua voz firme continuará eternamente através de suas palavras registradas nas escrituras, para levar a cabo o estabelecimento de Sião e Jerusalém em retidão. Outro significado desta passagem é que o Senhor, falando através de Isaías, não se calará até a restauração e coligação nos últimos dias estiverem completas. Através das frases paralelas neste versículo, Isaías estabelece que as referências à Jerusalém neste capítulo são exemplos para a Sião dos últimos dias.

O versículo 1 contém um quiasma:

A: (1) Por amor de Sião não me calarei,
B: e por amor de Jerusalém
C: não me aquietarei,
B: até que saia a sua justiça como um resplendor,
A: e a sua salvação como uma tocha acesa.

Neste quiasma, o profeta declara que ele não se calará até que Sião e Jerusalém desfrutem da justiça e salvação. “Por amor de Sião não me calarei” complementa “[até que] a sua salvação [saia] como uma tocha acesa”. Note também que o primeiro e o segundo elementos são paralelos tanto do lado ascendente quanto do lado descendente.

O versículo 1 contém um quiasma reconhecido no original em hebraico, que foi reconstruído aqui para combinar com a construção em hebraico:[2]

A: Até que saia
B: como um resplendor
C: a sua justiça,
C: e a sua salvação
B: como uma tocha
A: acesa
.

O uso de quiasma simultaneamente em escalas diferentes é evidente neste versículo. “A sua justiça” complementa “a sua salvação” e “resplendor” é equivalente à frase “como uma tocha”.

O versículo 2 prediz: “E os gentios verão a tua justiça, e todos os reis a tua glória; e chamar-te-ão por um nome novo, que a boca do Senhor designará”. Isaías dirige-se à Sião coletivamente, usando a segunda pessoa do singular. O mundo verá a glória e justiça de Sião, e o Senhor dará à Sião, coletivamente, um nome novo.

O rei Benjamin, no Livro de Mórmon, deu uma explicação sobre o nome a ser dado ao povo de Sião; ele desafia seu povo a tomar sobre si o nome de Cristo:

“E sob este nome vós sois libertados e não há qualquer outro nome por meio do qual podeis ser libertados. Não há qualquer outro nome pelo qual seja concedida a salvação; quisera, portanto, que tomásseis sobre vós o nome de Cristo, todos vós que haveis feito convênio com Deus de serdes obedientes até o fim de vossa vida.
“E acontecerá que aquele que fizer isto se encontrará à mão direita de Deus, porque saberá o nome pelo qual é chamado; porque será chamado pelo nome de Cristo.
“E então acontecerá que aquele que não tomar sobre si o nome de Cristo deverá ser chamado por algum outro nome; portanto se encontrará à mão esquerda de Deus.
“E quisera que também vos lembrásseis de que este é o nome que eu disse que vos daria e que nunca seria apagado, a menos que o fosse devido a transgressão; portanto tomai cuidado para não transgredirdes, a fim de que o nome não seja apagado de vosso coração.
“Digo-vos: Quisera que vos lembrásseis de conservar sempre o nome escrito em vosso coração, para que não vos encontreis à mão esquerda de Deus, mas para que ouçais e conheçais a voz pela qual sereis chamados e também o nome pelo qual ele vos chamará.”[3]

O Senhor revelou a Joseph Smith, o profeta da restauração, o nome pelo qual o povo do Senhor deveria ser chamado: “Pois assim será a minha igreja chamada nos últimos dias, sim, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.[4] Dado diretamente pelo Senhor, como predisse Isaías, este nome fornece os meios pelos quais o povo do Senhor pode tomar sobre si o nome sagrado de seu Salvador, como estipulado pelo rei Benjamin.

Também há um novo nome dado aos indivíduos. O Senhor, em Doutrina e Convênios, mencionou um novo nome que seria dado aos que herdarem o reino celestial: “E é dada uma pedra branca a cada um dos que entram no reino celestial, na qual está escrito um novo nome que ninguém conhece, a não ser aquele que o recebe. O novo nome é a palavra-chave”.[5]

O versículo 3 declara: “E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, e um diadema real na mão do teu Deus”. A retidão de Sião e seu povo trará glória ao Senhor.

Outros profetas do Velho Testamento predisseram esses acontecimentos usando semelhantes palavras. Malaquias profetizou: “E eles serão meus, diz o Senhor dos Exércitos; naquele dia serão para mim jóias; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve”.[6] Zacarias predisse: “E o Senhor seu Deus naquele dia os salvará, como ao rebanho do seu povo: porque como pedras de uma coroa eles resplandecerão na sua terra”.[7] Em ambas passagens Sião e sua glória são comparadas às jóias de uma coroa.

Em Doutrina e Convênios, o Senhor usa esta mesma metáfora: “Contudo possui-los-ei e serão meus no dia em que eu vier para reunir minhas jóias”.[8] Novamente em Doutrina e Convênios, o Senhor declara: “Porque eu, o Senhor, governo em cima nos céus e entre os exércitos da Terra; e no dia em que eu reunir minhas jóias, todos os homens saberão o que é que revela o poder de Deus”.[9]

Os escritores do Novo Testamento usaram a metáfora da coroa para descrever as bênçãos da vida eterna. Pedro predisse: “E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória”.[10] O Senhor, sendo citado por João, o Revelador, admoestou: “Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”.[11]

No versículo 4, o Senhor—novamente dirigindo-se à Sião coletivamente na segunda pessoa do singular—declara: “Nunca mais te chamarão: Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais: Assolada; mas chamar-te-ão: O meu prazer está nela, e à tua terra: A casada; porque o Senhor se agrada de ti, e a tua terra se casará”. Os significados em hebraico foram traduzidos na versão de João Ferreira de Almeida usando as frases “O meu prazer está nela” (khef‑tVer’baw no hebraico) [12] e “a casada” (baw‑al’ no hebraico),[13] mas estas frases são transliteradas em outras traduções modernas da Bíblia incluindo a de King James em inglês e a Reina-Valera 2009 SUD em espanhol.[14] Aqui o Senhor usa a metáfora do casamento para descrever o apego e segurança que o povo desfrutará em suas próprias terras na época em que lhe forem devolvidas. Isto se contrasta com sua existência, por muitas gerações, como peregrinos e estrangeiros em terras alheias. “Se casará” no versículo 4 também foi traduzido do hebraico baw‑al’; entretanto, o significado neste caso é “possuir”.[15]

O versículo 4 contém um quiasma:

A: (4) Nunca mais te chamarão: Desamparada,
B: nem a tua terra se denominará jamais: Assolada;
C: mas chamar-te-ão: O meu prazer está nela,
C: e à tua terra: A casada;
B: porque o Senhor se agrada de ti,
A: e a tua terra se casará.

O Senhor comparou uma mulher desamparada e uma mulher casada às terras prometidas à Sião e Jerusalém. A metáfora descreve o estado destas terras prometidas quando fossem possuídas pelos descendentes justos de Israel nos últimos dias. “Nunca mais te chamarão: Desamparada” complementa “a tua terra se casará”; e “nem a tua terra se denominará jamais: Assolada” é complementada por “o Senhor se agrada de ti”.

O versículo 5 explica a metáfora: “Porque, como o jovem se casa com a virgem, assim teus filhos se casarão contigo; e como o noivo se alegra da noiva, assim se alegrará de ti o teu Deus”.[16] “Teus filhos” significa os descendentes de Israel, os herdeiros legítimos da terra. A terra verdadeiramente pertenceria a eles, ao contrário das terras em outros países que pertenciam a outros povos onde eles viveram por muitas gerações.

No versículo 6, o Senhor descreve os líderes eclesiásticos dos últimos dias responsáveis pelo bem-estar espiritual de Sião e Jerusalém: “Ó Jerusalém, sobre os teus muros pus guardas, que todo o dia e toda a noite jamais se calarão; ó vós, os que fazeis lembrar ao Senhor, não haja descanso em vós”. O termo “guardas” significa líderes eclesiásticos do povo—ou aqueles que têm a autoridade sacerdotal, recebem visões proféticas e têm responsabilidades sobre os assuntos espirituais. Isaías apresentou a símile das “sentinelas” anteriormente, no capítulo 21;[17] estas diligentes sentinelas, ou guardas, advertiriam ao povo continuamente e não falhariam em cumprir seus deveres.

O versículo 7 descreve a súplica diligente dos líderes eclesiásticos ao Senhor a favor de Jerusalém: “Nem deis a ele descanso, até que confirme, e até que ponha a Jerusalém por louvor na terra”.[18] Sua súplica seria para que Sião e Jerusalém fossem estabelecidas em retidão. Esta declaração compara-se com a de Isaías, dada no versículo 1, dizendo que ele não se calaria até que Sião fosse estabelecida.

O versículo 8 descreve a convênio que seria feito pelo Senhor aos habitantes de Sião e Jerusalém: “Jurou o Senhor pela sua mão direita, e pelo braço da sua força: Nunca mais darei o teu trigo por comida aos teus inimigos, nem os estrangeiros beberão o teu mosto, em que trabalhaste”. A mão direita do Senhor—e o braço da sua força—implica o uso de força militar pelo Senhor para derrotar os invasores e usurpadores que no passado confiscaram as colheitas dos habitantes de Jerusalém. A mão direita é usada para fazer convênios;[19] neste caso, o Senhor faria um convênio com os habitantes de Sião e Jerusalém de protegê-los e defendê-los.

O versículo 9 conclui o cântico de salvação que começou nos últimos versículos do capítulo anterior: “Mas os que o ajuntarem o comerão, e louvarão ao Senhor; e os que o colherem beberão nos átrios do meu santuário”. Os habitantes de Sião e Jerusalém comerão os frutos da colheita e renderão graças ao Senhor; beberão o mosto (vinho) que eles prepararam durante as cerimônias sagradas nos templos do Senhor.[20]

Na Última Ceia, antes de Sua crucificação, Jesus apresentou o vinho como representação do sangue que Ele derramaria ao levar a cabo a Expiação.[21] Ele testificou: “Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus”.[22] O Senhor deu mais detalhes sobre esta passagem aos Seus discípulos nos últimos dias:

“Eis que nisto há sabedoria; portanto não vos maravilheis, porque virá a hora em que, na Terra, beberei do fruto da vide convosco e com Morôni, a quem enviei para vos revelar o Livro de Mórmon, que contém a plenitude do meu evangelho eterno, e a quem confiei as chaves do registro da vara de Efraim” (ênfases adicionadas).[23]

O Senhor mencionou outros profetas que apareceram a Joseph Smith para restaurarem as chaves do sacerdócio e o conhecimento pertinente à dispensação da plenitude dos tempos, com quem Ele beberia do vinho sacramental na Sua vinda: Elias, João Batista, Elias o tisbita, José, Jacó, Isaque, Abraão, Miguel ou Adão, Pedro, Tiago, e João.[24]

Os versículos 10 até 12 descrevem a restauração do evangelho nos últimos dias e o estabelecimento de Sião e Jerusalém. O versículo 10 começa: “Passai, passai pelas portas; preparai o caminho ao povo; aplanai, aplanai a estrada, limpai-a das pedras; arvorai a bandeira aos povos”. As frases repetidas são para dar ênfases, como se estivesse sublinhado duas vezes. “O caminho” e “a estrada” são metáforas que significam o caminho da salvação, ou o conhecimento do Plano de Salvação.[25] As “portas” representam as ordenanças de salvação pelas quais poderemos entrar no caminho estreito e apertado.[26] As pedras a serem limpadas, ou retiradas, do caminho são doutrinas falsas que obstruiriam o caminho, ou interfeririam com a compreensão do Plano de Salvação do Senhor.

A divisão do Mar Vermelho é um símbolo para o caminho estreito e apertado, que leva à salvação. Anteriormente, no capítulo 11, Isaías explicou: “E haverá caminho plano para o remanescente do seu povo, que for deixado da Assíria, como sucedeu a Israel no dia em que subiu da terra do Egito”.[27]

O versículo 11 declara: “Eis que o Senhor fez ouvir até às extremidades da terra: Dizei à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação; eis que com ele vem o seu galardão, e a sua obra diante dele”. Esta passagem prenuncia as palavras entoadas pela multidão durante a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, na última semana de Seu ministério mortal: “E a multidão que ia adiante, e a que seguia, clamava, dizendo: Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” (Ênfases adicionadas).[28]

Esta passagem no versículo 11 é uma entre as muitas encontradas no Velho Testamento citadas por escritores do Novo Testamento como tendo sido cumpridas durante a vida de Jesus Cristo.[29] Isaías usa “filha de Sião” aqui como um sinônimo para Jerusalém.[30]

O versículo 11 contém um quiasma:

A: (11) Eis que o Senhor
B: fez ouvir até às extremidades da terra:
C: Dizei à filha de Sião:
B: Eis que vem a tua salvação;
A: eis que com ele vem o seu galardão, e a sua obra diante dele.

Neste quiasma, o Senhor proclama até às extremidades da terra que a salvação de Sião e Jerusalém há de vir. “Eis que o Senhor” complementa “eis que com ele vem o seu galardão, e a sua obra diante dele”; pois o Senhor é quem traz o Seu galardão e Sua obra Consigo.

O versículo 12 conclui: “E chamar-lhes-ão: Povo santo, remidos do Senhor; e tu serás chamada: Procurada, a cidade não desamparada”. Depois que o Senhor intervir e o povo for santificado, Jerusalém não será mais uma cidade a ser evitada, mas será procurada por vários visitantes buscando iluminação ou conhecimento.

NOTAS

[1]. Victor L. Ludlow, Isaiah: Prophet, Seer, and Poet [Isaías: Profeta, Vidente e Poeta]: Deseret Book Company, Salt Lake City, Utah, 1982, p. 506-507.
[2]. Donald W. Parry, Harmonizing Isaiah: Foundation for Ancient Research e Mormon Studies (FARMS) at Brigham Young University [A Harmonização de Isaías: Fundação de Pesquisas Antigas e Estudos Mórmons na Universidade Brigham Young], Provo, Utah, 2001, p. 265.
[3]. Mosias 5:8-12.
[4]. Doutrina e Convênios 115:4.
[5]. Doutrina e Convênios 130:11; Ver também Apocalipse 3:12.
[6]. Malaquias 3:17.
[7]. Zacarias 9:16.
[8]. D&C 101:3.
[9]. D&C 60:4.
[10]. 1 Pedro 5:4.
[11]. Apocalipse 2:10.
[12]. F. Brown, S. Driver, e C. Briggs, The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [Léxico Hebraico e Inglês de Brown-Driver-Briggs]: Hendrickson Publishers, Peabody, MA, 01961-3473, 1996, Número de Strong 2657, p. 343; Ver também 2 Reis 21:1.
[13]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1166, p. 127.
[14]. As traduções da Bíblia usadas para comparação neste comentário foram acessadas através da “The Unbound Bible” [“A Bíblia Desencadernada]” no site http://unbound.biola.edu. O site é provido e mantido pela Biola University [Universidade Biola], Administrative Computing [Computação Administrativa], 3800 Biola Ave., La Mirada, California 90639.
[15]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1166, p. 127.
[16]. Os versículos 4 e 5 contêm um quiasma: Nunca mais te chamarão: Desamparada/O meu prazer está nela … A casada/a tua terra se casará//teus filhos se casarão contigo/o noivo se alegra da noiva/se alegrará de ti o teu Deus.
[17]. Ver Isaías 21:6; 52:8; 56:10 e comentário pertinente.
[18]. Os versículos 6 e 7 contêm um quiasma: Ó Jerusalém/que todo o dia e toda a noite/jamais se calarão//nem deis a ele descanso/até que confirme/Jerusalém por louvor.
[19]. Ver Deuteronômio 33:2; Isaías 41:10.
[20]. Ver D&C 27:2-4.
[21]. Ver Lucas 22:20.
[22]. Lucas 22:18.
[23]. D&C 27:5.
[24]. Ver D&C 27:6-13.
[25]. Ver Isaías 26:7-8; 28:7; 35:8; 40:3; 49:11; 51:10 e comentário pertinente.
[26]. Ver Mateus 7:13-14 (3 Néfi 14:13-14); Lucas 13:24; 2 Néfi 31:18; 33:9; Jacó 6:11; 3 Néfi 27:33; D&C 22:1-2; 132:22.
[27]. Isaías 11:16 (2 Néfi 21:16) e comentário pertinente.
[28]. Ver Mateus 21:9 (9-15); também Zacarias 9:9-11.
[29]. Ver Isaías 6:10, comentário pertinente e nota de rodapé.
[30]. Ver 2 Reis 19:21, 31; Salmos 9:14; 51:18; Isaías 10:32; 16:1; 37:22; 52:2.

CAPÍTULO 61: “Enviou-me A Restaurar Os Contritos De Coração, A Proclamar Liberdade Aos Cativos”

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Isaías começa o capítulo 61 com uma declaração que descreve o ministério do Senhor Jesus Cristo e, como protótipo, seu próprio ministério profético e os deveres cristãos dos discípulos justos do Senhor em todas as eras. A primeira passagem principal é seguida por uma profecia concernente à Restauração nos últimos dias e ao estabelecimento de Sião e de Israel. Este capítulo termina com um cântico de salvação, narrado por Isaías. O Livro de Mórmon e Doutrina e Convênios proveem dicas importantes para entender este capítulo.

Nos versículos 1 até 3, Isaías descreve a missão do Salvador para levar a cabo a Expiação. Esta descrição também reflete os propósitos do ministério profético de Isaías e da missão dos discípulos justos do Senhor. O versículo 1 começa: “O espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos”. O Grande Pergaminho de Isaías omite o título “Deus”, e diz “o espírito do Senhor está sobre mim …”,[1] que resulta no significado de “o espírito de Jeová”. O Senhor é chamado para pregar boas novas aos que estão dispostos a serem ensinados e para libertar àqueles acorrentados pela ignorância e pecado.

Os povos do Senhor em todas as gerações tiveram a responsabilidade com o Senhor de proclamar o evangelho e aperfeiçoar os santos. A responsabilidade adicional de redimir os mortos—ao fazer ordenanças para os mortos nos templos sagrados—foi inicialmente dada aos servos do Senhor depois da ressurreição de Cristo,[2] mas especialmente nos últimos dias.[3]

O versículo 2 continua: “A apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes”. Uma oportunidade de arrependimento já foi dada pelo Senhor, visto que aqueles que não se arrependerem serão sujeitos à ira e punição do Senhor. Além disso, o Senhor proveu a ressurreição universal dos mortos, dando um grande conforto para todas pessoas de qualquer idade, que lamentam a partida de entes queridos.

O dia da vingança, quando todos aqueles que não se arrependerem forem exterminados da Terra—encerrando “o ano aceitável do Senhor” quando o arrependimento fosse concedido—ocorrerá antes da Segunda Vinda do Senhor.[4] O Senhor ressuscitado falou aos nefitas concernente ao previsto dia da vingança:

“Porque acontecerá, diz o Pai, que nesse dia todo aquele que não se arrepender e não vier ao meu Filho Amado, eu o tirarei do meio de meu povo, ó casa de Israel!
“E executarei minha vingança e exercerei meu furor sobre eles, assim como sobre os pagãos, de um modo como nunca ouviram.
“Mas caso se arrependam e deem ouvidos a minhas palavras e não endureçam o coração, entre eles estabelecerei a minha igreja e permitirei que tomem parte no convênio e que sejam contados com estes remanescentes de Jacó, a quem dei esta terra como herança.
“E ajudarão meu povo, o remanescente de Jacó, e também quantos vierem da casa de Israel, a construir uma cidade que será chamada Nova Jerusalém” (ênfase adicionada).[5]

O Senhor Jesus Cristo citou os versículos 1 e 2 durante Seu ministério mortal na sinagoga em Nazaré, como foi registrado por Lucas:

“O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração,
“A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor.”[6]

Note a substituição no Novo Testamento de “evangelizar” para “pregar boas novas”, que tem o mesmo significado.[7]

Lucas continua: “Então começou [Jesus] a dizer-lhes [àqueles na sinagoga]: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos”.[8] A declaração de Jesus significa que a escritura referia-se a Ele—Ele foi enviado por Deus, o Pai, para pregar, curar e libertar. O propósito de Jesus ao citar esta escritura era o de proclamar que Ele era o Messias prometido; com isto fica claro o significado intencionado por Isaías desta passagem como um símbolo do Messias.

Jesus mencionou o versículo 2 no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”.[9]

A restauração da visão dos cegos tem dois significados. No capítulo 29, Isaías descreve bênçãos espirituais a serem derramadas quando O Livro de Mórmon viesse à luz: “E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos dos cegos as verão”.[10]

O significado espiritual é que os são surdos e mudos espiritualmente serão capazes de compreender assuntos espirituais por causa do conteúdo do Livro de Mórmon. Tanto a restauração da visão física quanto a cura, além da percepção e capacitação espirituais, aplicam-se ao ministério terreno do Senhor Jesus Cristo, enquanto que somente o significado espiritual aplica-se ao chamado de Isaías e à missão dos justos.

O significado da frase “proclamar liberdade aos cativos” é mencionado em diversos lugares em Doutrina e Convênios. Joseph F. Smith, em sua visão da redenção dos mortos e o ministério do Senhor Jesus Cristo durante os três dias enquanto Seu corpo estava no sepulcro, disse: “E Isaías, que anunciou, por profecia, que o Redentor fora ungido para curar os contritos de coração, proclamar liberdade aos cativos e a abertura da prisão aos presos, também [estava] lá”.[11]

Joseph F. Smith explicou com mais detalhes:

“Enquanto essa vasta multidão esperava e conversava, regozijando-se pela hora de sua libertação das cadeias da morte, o Filho de Deus apareceu, anunciando a liberdade aos cativos que tinham sido fiéis;
“E ali pregou-lhes o evangelho eterno, a doutrina da ressurreição e a redenção do gênero humano da queda e dos pecados individuais, desde que houvesse arrependimento.”[12]

O Profeta Joseph Smith, ao descrever sua grande visão da salvação da humanidade, testificou:

“E também aqueles [herdeiros da salvação] que são os espíritos de homens mantidos na prisão, a quem o Filho visitou e pregou o evangelho para que fossem julgados segundo os homens na carne;
“Os que não receberam o testemunho de Jesus na carne, mas receberam-no depois.[13]

Concernente à obra de redenção dos mortos, pela qual as ordenanças da salvação são oferecidas àqueles que passaram desta vida mortal sem recebê-las, o Profeta Joseph proclamou:

“Irmãos, não prosseguiremos em tão grande causa? Ide avante e não para trás. Coragem, irmãos; e avante, avante para a vitória! Regozije-se vosso coração e muito se alegre. Prorrompa a terra em canto. Entoem os mortos hinos de eterno louvor ao Rei Emanuel, que estabeleceu, antes da fundação do mundo, aquilo que nos permitiria redimi-los de sua prisão; pois os prisioneiros serão libertados.”[14]

A libertação dos cativos refere-se não só à obra de salvação do Senhor Jesus Cristo ao oferecer a Expiação, pela qual a morte é vencida e os pecados podem ser perdoados, mas também reflete os trabalhos feitos nos templos sagrados a fim de oferecer as ordenanças de salvação àqueles que não as receberam durante sua jornada terrena.

Os versículos 1 e 2 contêm um quiasma:

A: (1) O espírito do Senhor DEUS está sobre mim;
B: porque o SENHOR me ungiu,
C: para pregar boas novas aos mansos;
D: enviou-me a restaurar os contritos de coração,
D: a proclamar liberdade aos cativos,
C: e a abertura de prisão aos presos;
B: (2) A apregoar o ano aceitável do Senhor
A: e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes—

A mensagem deste quiasma é que a missão do Senhor—bem como a de Isaías e a dos discípulos justos do Senhor—é de trazer a cura e liberdade aos cativos. A frase “Para pregar boas novas aos mansos” é equivalente à frase “a abertura de prisão aos presos”, e “a restaurar os contritos de coração” corresponde à “proclamar liberdade aos cativos”.

O versículo 3 continua: “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do Senhor, para que ele seja glorificado”.[15] Aqueles que estão de luto receberão bênção especiais; seu sofrimento será substituído com glória, gozo e o manto da felicidade. “Cinza” refere-se à prática de cobrir-se de cinzas, vestidos com panos de sacos, como uma expressão exterior de luto.[16] O termo “Sião” como foi usado aqui significa tanto um lugar para a coligação espiritual nos últimos dias quanto a Jerusalém justa dos últimos dias.[17]

A frase “árvores de justiça, plantações do Senhor” é uma metáfora para o povo do convênio do Senhor. A mesma metáfora foi usada pelo profeta Zenos, cujas palavras estão contidas nas placas de latão que foram levadas para o deserto por Leí e sua família na época em que fugiram de Jerusalém. As palavras de Zenos são citadas em vários lugares no Livro de Mórmon.[18] Isaías também estava ciente deste antigo profeta hebreu, o que é evidente nesta passagem. Zenos comparou Israel, ou o povo do convênio do Senhor por todas as eras da Terra, a uma oliveira, cujos ramos começaram a definhar. O Senhor da vinha, então, removeu os ramos definhados e enxertou ramos de oliveiras bravas em seu lugar e levou os ramos cortados da árvore original para ser enxertados nas oliveiras bravas em vários lugares da vinha do Senhor. Os frutos destes ramos enxertados variavam entre bons a amargos, tendendo mais para o amargo com o passar do tempo. Eventualmente, quando todos os frutos tornarem-se amargos, o Senhor da vinha trará de volta os ramos originais que Ele enxertou por toda Sua vinha, e enxertá-los-á na oliveira original e removerá os ramos bravos; restaurando, assim, os bons frutos e preservando as boas raízes da oliveira original.[19]

As palavras de Zenos eram bem conhecidas antigamente, embora estejam perdidas no mundo atual, exceto onde foram citadas nas escrituras por outros escritores. O Apóstolo Paulo citou a metáfora de Zenos em sua epístola aos romanos.[20] Jacó resumiu: “E agora eis que, meus irmãos, como vos disse que profetizaria, eis que esta é a minha profecia—que as coisas que este profeta Zenos disse referentes à casa de Israel, comparando-a a uma oliveira boa, seguramente acontecerão”.[21]

As frases de Isaías “óleo de gozo em vez de tristeza” e “vestes de louvor em vez de espírito angustiado” não aparecem em nenhum outro lugar nas escrituras. As frases são sinônimas, e significam restauração do gozo e felicidade, que deverá ser levada a cabo através da Expiação do Senhor Jesus Cristo. “Óleo” pode estar relacionado ao fruto da oliveira boa na metáfora de Zenos.

Os versículos 4 até 6 descrevem a reconstrução de cidades há muito tempo destruídas. A prevista reconstrução física é um exemplo para a edificação espiritual de Sião e restauração do evangelho na dispensação da plenitude dos tempos, sobrepujando, assim, os efeitos destrutivos das apostasias que seguiram as dispensações anteriores. O versículo 4 começa: “E edificarão os lugares antigamente assolados, e restaurarão os anteriormente destruídos, e renovarão as cidades assoladas, destruídas de geração em geração”. Aquilo que ficou assolado e destruído por muitas gerações—ou seja, o conhecimento do Plano de Salvação—seria restaurado em sua plenitude. As frases paralelas afirmam que os justos que serão coligados, devido terem dado ouvidos a mensagem do Senhor, auxiliarão no estabelecimento de Sião e na pregação do conhecimento do Plano de Salvação.

O versículo 5 continua: “E haverá estrangeiros, que apascentarão os vossos rebanhos; e estranhos serão os vossos lavradores e os vossos vinhateiros”. Aqueles que não são da linhagem do convênio também encontrarão um lugar na sociedade de Sião, executando tarefas físicas essenciais.

O versículo 6 declara: “Porém vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis a riqueza dos gentios, e na sua glória vos gloriareis”.[22] Os descendentes de Israel servirão em chamados ministeriais; aqueles da linhagem do convênio desfrutarão das riquezas trazidas pelas nações gentias. Aqueles que não são da linhagem do convênio executarão tarefas físicas, permitindo, assim, com que os da linhagem do convênio estejam disponíveis a executarem a obra do ministério.

Os versículos 7 até 9 descrevem a recompensa prevista para os penitentes que se reunirem em Sião. O versículo 7 começa: “Em lugar da vossa vergonha tereis dupla honra; e em lugar da afronta exultareis na vossa parte; por isso na sua terra possuirão o dobro, e terão perpétua alegria”. Em reconhecimento à vergonha e perseguição que suportaram, os coligados em Sião receberão o dobro da recompensa em forma de bênçãos e terão perpétua alegria.

O versículo 8 continua: “Porque eu, o Senhor, amo o juízo, odeio o que foi roubado oferecido em holocausto; portanto, firmarei em verdade a sua obra; e farei uma aliança eterna com eles”. O Grande Pergaminho de Isaías diz “… firmarei em verdade a vossa obra; e farei uma aliança eterna convosco”.[23] “Juízo”, como foi usado aqui, significa “equidade”,[24] justiça social,[25] retribuição,[26] raciocínio são,[27] e um sistema de leis equitativo.[28] A frase “odeio o que foi roubado oferecido em holocausto” pode estar se referindo a quando Jesus expulsou os que estavam comprando e vendendo mercadorias e dinheiro no templo,[29] e também a razão pela qual a Igreja hoje não aceita dízimos de ganhos desonestos, incluindo ganhos por meio de loteria ou jogos de azar.

O versículo 9 conclui: “E a sua posteridade será conhecida entre os gentios, e os seus descendentes no meio dos povos; todos quantos os virem os conhecerão, como descendência bendita do Senhor”.[30] O Grande Pergaminho de Isaías diz “E a vossa posteridade será conhecida entre os gentios, e os vossos descendentes no meio dos povos.”…[31] O mundo reconhecerá aqueles que possuem e exercem em retidão o sacerdócio entre os coligados de Sião.

Os versículos 10 e 11—juntamente com os primeiros 9 versículos do capítulo 62—formam um cântico de salvação, narrado por Isaías.[32] O versículo 10 começa: “Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias”. Isaías louva ao Senhor por haver lhe dado as bênçãos da salvação. As “roupas de salvação” e “o manto de justiça” significam as ordenanças e convênios do templo disponíveis aos justos. Estas frases também são uma metáfora para a Israel justa como uma noiva para Jeová na Sua Segunda Vinda.

Jeffrey R. Holland prestou um solene testemunho sobre o amor de Deus para com todos:

“Testifico que nenhum de nós é menos amado ou menos querido por Deus do que outros. Testifico que Ele ama a cada um de nós―com nossas inseguranças nossas ansiedades e nossa autoimagem. Ele não nos julga por nossos talentos ou nossa aparência; Ele não nos julga por nossa profissão nem por nossas posses. Ele torce por cada corredor, alertando-os que a corrida é contra o pecado, não uns contra os outros. Sei que se formos fiéis, seremos cobertos com um manto de justiça confeccionado sob medida para cada um, ‘vestes … branqueadas no sangue do Cordeiro’”.[33], [34]

O versículo 11 conclui: “Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor DEUS fará brotar a justiça e o louvor para todas as nações”. Isaías louva ao Senhor por causa do estabelecimento da retidão entre todas as nações, predito para os últimos dias, e pelo cumprimento das profecias concernentes à redenção do povo do Senhor.

Os versículos 10 e 11 contêm um quiasma:

A: (10) Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus;
B: porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça,
C: como um noivo se adorna com turbante sacerdotal,
C: e como a noiva que se enfeita com as suas jóias.
B: (11) Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia,
A: assim o Senhor DEUS fará brotar a justiça e o louvor para todas as nações.

A mensagem deste quiasma é que o Senhor derramará grandes bênçãos sobre os justos que serão coligados de todas as nações. “Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus” corresponde-se à frase “o Senhor DEUS fará brotar a justiça e o louvor para todas as nações”.

NOTAS

[1]. Donald W. Parry, Harmonizing Isaiah: Foundation for Ancient Research e Mormon Studies (FARMS) at Brigham Young University [A Harmonização de Isaías: Fundação de Pesquisas Antigas e Estudos Mórmons na Universidade Brigham Young], Provo, Utah, 2001, p. 233.
[2]. Ver 1 Coríntios 15:29.
[3]. Ver Doutrina e Convênios 124:29; 127:6; 128:16.
[4]. Ver Isaías 34:2-8; 63:1-3; D&C 1:13-14; 97:6; 133:46-51.
[5]. 3 Néfi 21:20-23.
[6]. Lucas 4:18-19.
[7]. Ernest Klein, A Comprehensive Etymological Dictionary of the English Language [Um Dicionário Etimológico Completo do Inglês]: Elsevier Publishing Company, New York, 1971, p. 318.
[8]. Lucas 4:21; Ver Isaías 6:10, comentário pertinente e nota de rodapé.
[9]. Mateus 5:4; 3 Néfi 12:4.
[10]. Isaías 29:18
[11]. D&C 138:42; Ver também D&C 138:31.
[12]. D&C 138:18-19.
[13]. D&C 76:73-74; Ver também D&C 88:99.
[14]. D&C 128:22.
[15]. Os versículos 2 e 3 contêm um quiasma: O ano aceitável do Senhor/todos os tristes/tristes de Sião/glória//cinza/tristeza/espírito angustiado/plantações do Senhor.
[16]. Ver Isaías 58:5; Mateus 11:21.
[17]. Ver Isaías 3:16; 49:14; 51:3, 11; 52:1; 60:14; 66:8.
[18]. Ver Jacó 5:1-3. Ver também 1 Néfi 19:10-12, 16; Alma 33:3, 13-15; 34:7; Helamã 8:19; 15:11; 3 Néfi 10:16.
[19]. Ver Jacó 5:1-77.
[20]. Ver Romanos 11:17-24.
[21]. Jacó 6:1.
[22]. Os versículos 5 e 6 contêm um quiasma: Estrangeiros/estranhos/sacerdotes do Senhor//ministros de nosso Deus/gentios/sua glória.
[23]. Parry, 2001, p. 235.
[24]. Ver Isaías 1:21; 53:8; 56:1; 59:9, 11, 14, 15.
[25]. Ver Isaías 1:17; 5:7; 42:4; 59:8, 15.
[26]. Ver Isaías 1:17; 3:14; 4:4; 34:5.
[27]. Ver Isaías 1:17; 28:7; 40:14, 27; 42:3; 59:8.
[28]. Ver Isaías 1:17; 51:4; 54:17.
[29]. Ver Mateus 21:12-13.
[30]. Os versículos 6 até 9 contêm um quiasma: Sacerdotes do Senhor/gentios/vergonha tereis dupla honra/eu, o Senhor, amo o juízo//odeio o que foi roubado oferecido em holocausto/firmarei em verdade a sua obra/gentios/descendência bendita do Senhor.
[31]. Parry, 2001, p. 235.
[32]. Victor L. Ludlow, Isaiah: Prophet, Seer, and Poet [Isaías: Profeta, Vidente e Poeta]: Deseret Book Company, Salt Lake City, Utah, 1982, p. 506-507.
[33]. Apocalipse 7:14.
[34]. Jeffrey R. Holland, “O Outro Filho Pródigo”, A Liahona, Julho de 2002, p. 69.

CAPÍTULO 60: “Far-te-ei Uma Excelência Perpétua, Um Gozo De Geração Em Geração”

Para ver os comentários de cada capítulo de Isaías, bem como cada introdução, desça até encontrar, à direita, uma lista de todos os capítulos sob a seção “Categorias”. Clique no capítulo que deseja ler. ===>

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Este capítulo descreve a ascensão da nação de Israel nos últimos dias, restaurada como uma nação potente; e o estabelecimento de Sião na América, que existirá em esplendor celestial. Os detalhes desta profecia aplicam-se igualmente ao estabelecimento de Sião e à restauração de Israel como nações potentes e gloriosas. As nações gentias unir-se-ão a Israel e Sião para servi-las, e trarão suas riquezas como ofertas. É Isaías quem está falando nos primeiros quarto versículos; no restante deste capítulo é o Senhor. Uma chave importante para entender este capítulo é a comparação com passagens semelhantes encontradas em Doutrina e Convênios.[1]

Os versículos 1 até 4 descrevem o estabelecimento de Sião entre os descendentes dispersos de Israel como um povo abençoado e glorioso, com a glória do Senhor sobre ele. O versículo 1 começa: “Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti”. Sião é admoestada a resplandecer sua luz. A iluminação espiritual é um dos meios pelo qual a glória do Senhor será manifestada.

O versículo 2 descreve a iniquidade e escuridão espiritual cobrindo a Terra: “Porque eis que as trevas cobriram a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti o Senhor virá surgindo, e a sua glória se verá sobre ti”.[2] Sião será abençoada e iluminada, enquanto que o mundo em geral estará em trevas espirituais. Isaías usa um contraste literário para enfatizar os extremos, contrastando o grande mal sobre a Terra com a glória do Senhor sobre Sião e os coligados de Israel.[3]

O Senhor, em Doutrina e Convênios, usou palavras semelhantes para descrever o estado iniquo do mundo:

“Em verdade, em verdade eu te digo: Trevas cobrem a Terra e densa escuridão a mente do povo; e toda carne corrompeu-se diante de minha face.
“Eis que a vingança cairá rapidamente sobre os habitantes da Terra, um dia de ira, um dia de queima, um dia de desolação, de pranto, de luto e de lamentação; e, como uma tormenta, cairá sobre toda a face da Terra, diz o Senhor.”[4]

Bruce R. McConkie correlaciona o versículo 2 ao longo período de privação espiritual e intelectual conhecida como a Idade das Trevas:

“Quando o sol do evangelho se pôs há dois milênios atrás, quando o sacerdócio foi retirado, e uma temível escuridão desceu sobre as congregações que já tinham, anteriormente, visto a luz, quando a luz e a verdade não mais brilhavam dos céus, e quando os que habitavam a terra não mais eram ensinados e dirigidos por apóstolos e profetas, reinou a escuridão. … As trevas cobriram a Terra, e a escuridão os povos. … A Idade das Trevas tivera seu início, e a luz dos céus não mais habitou nos corações daqueles que professavam adorar ao Deus a quem pertencemos.”[5]

No versículo 3, as nações do mundo vêm à Sião para partilhar da abundante luz: “E os gentios caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu”. Líderes das “nações”—traduzido na versão de João Ferreira de Almeida como “gentios”[6]—buscarão a luz da inspiração que existe em Sião.

O Senhor, em uma revelação moderna, descreve o papel de Sião como um estandarte para as nações:

“Em verdade eu digo a vós todos: Erguei-vos e brilhai, para que vossa luz seja um estandarte para as nações;
“E para que a reunião na terra de Sião e em suas estacas seja uma defesa e um refúgio contra a tempestade e contra a ira, quando for derramada, sem mistura, sobre toda a Terra.”[7]

Um hino favorito escrito por Parley P. Pratt descreve a restauração do evangelho nos últimos dias, inspirado pelas palavras dos versículos 1 até 3:

A alva rompe em Sião, e a verdade faz volver.
Depois da longa escuridão, depois da longa escuridão, bendito dia vai nascer.

Diante da divina luz trevas e erro fugirão;
O evangelho de Jesus, o evangelho de Jesus os povos todos ouvirão.

Nações gentias exultai, a plenitude já chegou
Ó filhos de Sião buscai, ó filhos de Sião buscai, união com Deus, que vos salvou.[8]

Os versículos 2 e 3 foram imortalizados no texto de “O Messias” de Handel, Parte 1 número 10—Recitativo para Baixo, “Porque Eis Que as Trevas Cobriram a Terra”.

Os versículos 1 até 3 contêm um quiasma:[9]

A: (1) Levanta-te,
B: resplandece,
C: porque vem a tua luz,
D: e a glória
E: do SENHOR vai nascendo sobre ti;
F: (2) Porque eis que as trevas cobriram a terra,
F: e a escuridão os povos;
E: mas sobre ti o Senhor virá surgindo,
D: e a sua glória se verá sobre ti.
C: (3) E os gentios caminharão à tua luz,
B: e os reis ao resplendor
A: que te nasceu.

“Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz” complementa “E os gentios [nações] caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu”. A glória do Senhor será a luz de Israel, e as nações—envolvidas pela escuridão e iniquidade—serão atraídas à ela.

No versículo 4, Sião é admoestada a levantar seus olhos e ver todos aqueles que buscam sua luz: “Levanta em redor os teus olhos, e vê; todos estes já se ajuntaram, e vêm a ti; teus filhos virão de longe, e tuas filhas serão criadas ao teu lado”. O evangelho restaurado seria pregado aos dispersos de Israel por todo o mundo, de onde seriam recolhidos à Sião.

Anteriormente, no capítulo 49, Isaías descreveu a coligação de Israel em detalhes:

“Assim diz o Senhor DEUS: Eis que levantarei a minha mão para os gentios, e ante os povos arvorarei a minha bandeira; então trarão os teus filhos nos braços, e as tuas filhas serão levadas sobre os ombros.
“E os reis serão os teus aios, e as suas rainhas as tuas amas; diante de ti se inclinarão com o rosto em terra, e lamberão o pó dos teus pés; e saberás que eu sou o Senhor, que os que confiam em mim não serão confundidos.”[10]

O evangelho seria, primeiramente, restaurado aos gentios, e estes o levaria aos dispersos de Israel por toda a Terra.

Nos demais versículos deste capítulo o Senhor é quem está falando, como foi declarado no versículo 7. Nos versículos 5 até 7 o Senhor descreve as riquezas das nações que seriam trazidas à Sião e Israel. O versículo 5 começa: “Então o verás, e serás iluminado, e o teu coração estremecerá e se alargará; porque a abundância do mar se tornará a ti, e as riquezas dos gentios virão a ti”. “O teu coração estremecerá” reflete o significado hebraico “maravilhar-se”.[11] A palavra “multidões” corresponde melhor à palavra hebraica traduzida como “abundância”.[12] Baseando-se na equivalência quiasmática, a frase “a abundância”—ou multidões —“do mar” significa povos que vivem nas ilhas ou do outro lado do mar.[13]

Os versículos 3 até 5 contêm um quiasma:

A: (3) E os gentios caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu.
B: (4) Levanta em redor os teus olhos, e vê; todos estes já se ajuntaram, e vêm a ti;
C: teus filhos virão de longe,
C: e tuas filhas serão criadas ao teu lado.
B: (5) Então o verás, e serás iluminado, e o teu coração estremecerá [maravilhar-se] e se alargará; porque a abundância [multidões] do mar se tornará a ti,
A: e as riquezas dos gentios virão a ti.

“Os gentios caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor que te nasceu” é complementado pela sentença “as riquezas dos gentios virão a ti”. A menção de entidades políticas—gentios (nações) e reis—indica que o Senhor está se referindo à Israel como uma nação. “Levanta em redor os teus olhos, e vê; todos estes já se ajuntaram, e vêm a ti” é equivalente a “então o verás, e serás iluminado, e o teu coração estremecerá [maravilhar-se-á] e se alargará; porque a abundância [multidões] do mar se tornará a ti”, provendo o significado de “a abundância do mar” como povos. A frase “teus filhos virão de longe” complementa “tuas filhas serão criadas ao teu lado”. A coligação de muitos membros das tribos de Israel refere-se tanto ao estabelecimento de Sião quanto à coligação e restauração de Israel como nação.

O versículo 6 continua: “A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e Efá; todos virão de Sabá; ouro e incenso trarão, e publicarão os louvores do Senhor”. As riquezas de muitas nações, tal qual as que foram mencionadas, serão dadas à Sião e Israel. Camelos, dromedários, ouro e incenso representam modos de medir riquezas no tempo de Isaías; estes também são representativos de medidas modernas de riquezas.

O versículo 7 resume: “Todas as ovelhas de Quedar se congregarão a ti; os carneiros de Nebaiote te servirão; com agrado subirão ao meu altar, e eu glorificarei a casa da minha glória”. Ofertas feitas à Sião e Israel pelos líderes das nações serão aceitas pelo Senhor. As nações mencionadas nos versículos 6 e 7 representam antigos adversários.

Em Doutrina e Convênios, o Senhor exorta os governantes políticos: “Despertai, ó reis da Terra! Vinde, ó vinde com vosso ouro e vossa prata, em auxílio de meu povo, à casa das filhas de Sião”.[14] O auxílio temporal das entidades políticas seria necessário e apropriado para o estabelecimento de Sião e Israel.

Nos versículos 8 até 11, o Senhor descreve a coligação de Israel. O versículo 8 começa: “Quem são estes que vêm voando como nuvens, e como pombas às suas janelas?” Isto provavelmente está descrevendo o transporte aéreo, por meio do qual viriam muitos daqueles que seriam coligados.

O versículo 9 continua: “Certamente as ilhas me aguardarão, e primeiro os navios de Társis, para trazer teus filhos de longe, e com eles a sua prata e o seu ouro, para o nome do Senhor teu Deus, e para o Santo de Israel, porquanto ele te glorificou”.[15] “Certamente as ilhas me aguardarão” pode, em parte, está se referindo aos nefitas no Continente Americano, a quem Cristo visitou depois de Sua crucificação e ressurreição, e a mescla dos descendentes nefitas e lamanitas nos últimos dias. Jacó, o irmão de Néfi, registrou que eles estavam “em uma ilha do mar”.[16] O termo “os navios de Társis” descreve meios de transportes marítimos para alguns daqueles que estarão sendo coligados.

O versículo 10 prediz: “E os filhos dos estrangeiros edificarão os teus muros, e os seus reis te servirão; porque no meu furor te feri, mas na minha benignidade tive misericórdia de ti”.

Ao falar sobre os santos dos últimos dias que estavam sendo afligidos com perseguição, o Senhor disse:

“No dia de sua paz, trataram com leviandade meus conselhos; mas, no dia de suas tribulações, buscaram-me por necessidade.
“Em verdade eu te digo: Apesar de seus pecados, minhas entranhas estão cheias de compaixão por eles. Não os expulsarei totalmente; e no dia da ira, lembrar-me-ei da misericórdia.”[17]

Este princípio aplica-se igualmente para o povo do convênio antigo e moderno.

O versículo 11 conclui: “E as tuas portas estarão abertas de contínuo, nem de dia nem de noite se fecharão; para que tragam a ti as riquezas dos gentios, e, conduzidos com elas, os seus reis”.[18] O Senhor prediz um grande influxo de força militar, vitória e riquezas de reis sobre os coligados de Sião e de Israel. As portas estando abertas de contínuo indica que Sião não temeria ser atacada, devido sua força militar e a proteção do Senhor.[19]

Ao descrever aqueles que se oporiam à Sua obra nos últimos dias, o Senhor declarou: “E também os visitarei e abrandarei o coração de muitos deles para o vosso bem, para que encontreis graça aos olhos deles, para que venham à luz da verdade e os gentios, à exaltação ou, em outras palavras, ao enaltecimento de Sião”.[20]

Nos versículos 12 até 18, o Senhor descreve a destruição das nações que afligiram Sião e Israel, e a concessão de suas riquezas ao povo do convênio do Senhor. O versículo 12 começa: “Porque a nação e o reino que não te servirem perecerão; sim, essas nações serão de todo assoladas”. O pronome “te” refere-se tanto à Israel quanto à Sião dos últimos dias.

O Senhor revelou o seguinte a Joseph Smith concernente as riquezas a serem trazidas à Sião:

“E [os coligados de Israel] trarão seus ricos tesouros para os filhos de Efraim, meus servos.
“E as extremidades dos outeiros eternos estremecerão em sua presença.
“E lá cairão e serão coroados de glória, sim, em Sião, pelas mãos dos servos do Senhor, os filhos de Efraim.”[21]

Aqui o Senhor explica sobre o papel de Efraim, cujos descendentes seriam instrumentais na restauração e coligação nos últimos dias.

O versículo 13 continua: “A glória do Líbano virá a ti; a faia, o pinheiro, e o álamo conjuntamente, para ornarem o lugar do meu santuário, e glorificarei o lugar dos meus pés”. [22] “A faia” foi traduzida da palavra hebraica “cipreste”.[23] Os materiais mais finos seriam usados para construir a Casa do Senhor e para torná-la gloriosa. Na antiguidade, as madeiras mais finas do Líbano foram trazidas à cidade de Jerusalém por Salomão para a construção do templo.[24]

Anteriormente, no capítulo 35, Isaías relacionou a frase “a glória do Líbano” ao estabelecimento de Sião no deserto nos últimos dias:

“O deserto e o lugar solitário se alegrarão disto; e o ermo exultará e florescerá como a rosa.
Abundantemente florescerá, e também jubilará de alegria e cantará; a glória do Líbano se lhe deu, a excelência do Carmelo e Sarom; eles verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus” (ênfases adicionadas).25]

O versículo 13 contém um quiasma:

A: (13) A glória do Líbano virá a ti;
B: a faia, o pinheiro, e o álamo conjuntamente,
B: para ornarem o lugar do meu santuário,
A: e glorificarei o lugar dos meus pés.

Este quiasma prediz a construção da Casa do Senhor. “A glória do Líbano virá a ti” complementa “glorificarei o lugar dos meus pés”; a frase “a faia, o pinheiro, e o álamo conjuntamente” é complementado por “para ornarem o lugar do meu santuário”, descrevendo os materiais de alta qualidade a serem usados na construção templo.

O versículo 14 proclama: “Também virão a ti, inclinando-se, os filhos dos que te oprimiram; e prostrar-se-ão às plantas dos teus pés todos os que te desprezaram; e chamar-te-ão a cidade do Senhor, a Sião do Santo de Israel”. “Sião” neste caso significa um lugar para a coligação espiritual nos últimos dias e também é um sinônimo para a Jerusalém dos últimos dias, vestida de retidão.[26]

Doutrina e Convênios também descreve estes acontecimentos:

“Pois eis que vos digo que Sião florescerá e a glória do Senhor estará sobre ela;
“E será um estandarte para o povo e a ela virão de todas as nações debaixo do céu.
“E chegará o dia em que as nações da Terra estremecerão por causa dela e temerão por causa de seus homens terríveis. O Senhor disse-o.”[27]

No versículo 15, o Senhor declara: “Em lugar de seres deixada, e odiada, de modo que ninguém passava por ti, far-te-ei uma excelência perpétua, um gozo de geração em geração”.[28] Sião, ou Israel—antes odiada e deixada—tornar-se-á perpetuamente um lindo lugar que trará felicidade para muitos.

O versículo 16 continua a declaração do Senhor: “E mamarás o leite dos gentios, e alimentar-te-ás ao peito dos reis; e saberás que eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, o Poderoso de Jacó”. [29] Mamarás o leite ao peito é uma metáfora para receber grandes bênçãos temporais, neste caso dos gentios e dos reis.

O versículo 17 continua: “Por cobre trarei ouro, e por ferro trarei prata, e por madeira, bronze, e por pedras, ferro; e farei pacíficos os teus oficiais e justos os teus exatores”. Os materiais de construção mencionados descrevem a abundância e qualidade da oferta a ser dada ao povo do Senhor; os que forem responsáveis pela supervisão da obra de construção a fará em espírito de bondade e retidão.

Em Doutrina e Convênios, o Senhor reitera: “Despertai, ó reis da Terra! Vinde, ó vinde com vosso ouro e vossa prata, em auxílio de meu povo, à casa das filhas de Sião”.[30]

Depois, no capítulo 61, Isaías descreve a construção de Sião e de Israel:

“E edificarão os lugares antigamente assolados, e restaurarão os anteriormente destruídos, e renovarão as cidades assoladas, destruídas de geração em geração.
“E haverá estrangeiros, que apascentarão os vossos rebanhos; e estranhos serão os vossos lavradores e os vossos vinhateiros.
“Porém vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis a riqueza dos gentios, e na sua glória vos gloriareis.”[31]

Os descendentes de Israel servirão em chamados ministeriais, enquanto que outros que não fazem parte do convênio farão trabalhos servis.

O versículo 18 descreve o estabelecimento da paz: “Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, desolação nem destruição nos teus termos; mas aos teus muros chamarás Salvação, e às tuas portas Louvor”. Por causa da adoração ao Senhor, a violência e destruição cessarão em Israel.

Os versículos 19 até 21 descrevem a luz de revelação que abundarão devido a prevalente retidão do povo. O versículo 19 começa: “Nunca mais te servirá o sol para luz do dia nem com o seu resplendor a lua te iluminará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu Deus a tua glória”. O Grande Pergaminho de Isaías diz “… nem com o seu resplendor a lua te iluminará à noite …”.[32] A luz do sol e da lua representam a nossa jornada da vida baseando-se em nossos sentidos físicos. A luz do Senhor, em contraste, é a luz da revelação e inspiração—um caminho mais certo e seguro. Além disso, a própria presença do Senhor é uma fonte de luz.

Joseph F. Smith falou a respeito de uma visão da visita do Senhor aos justos no mundo espiritual durante os três dias entre a morte e a ressurreição do Senhor:

“E os [espíritos dos] santos regozijaram-se em sua redenção e dobraram os joelhos e reconheceram o Filho de Deus como seu Redentor e Libertador da morte e das cadeias do inferno.
“Seus semblantes brilhavam e a resplandecência da presença do Senhor repousou sobre eles e cantaram louvores a seu santo nome.”[33]

A presença do Senhor resultou em uma luz iluminando as pessoas que Ele visitou.

João, o Revelador, descreveu semelhante iluminação na cidade de Sião, quando o Senhor estava lá: “E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre”.[34]

Um hino favorito descreve a luz da revelação e seu efeito em nossas vidas:

Minha alma hoje tem a luz, Um esplêndido clarão;
Brilha mais que o sol no céu azul, Pois vem da salvação. …[35]

O versículo 20 continua: “Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua minguará; porque o Senhor será a tua luz perpétua, e os dias do teu luto findarão”. Este versículo, que é equivalente quiasmaticamente ao versículo 19, parece um pouco contraditório. Aqui, entretanto, o sol e a lua tornam-se metáforas para a inspiração e presença do Senhor entre Seu povo; a luz do semblante do Senhor iluminará tanto temporal quanto espiritualmente.

O versículo 21 conclui: “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado”. A retidão dos que sobreviverem as destruições dos últimos dias resultará na segurança de sua herança para sempre. Também, sua retidão glorificará ao Senhor, seu Redentor.

O versículo 22 descreve uma grande força militar que foi possível devido a retidão do povo: “O menor virá a ser mil, e o mínimo uma nação forte; eu, o Senhor, ao seu tempo o farei prontamente”.[36] A Tradução de Joseph Smith apresenta “… eu, o Senhor, ao meu tempo o farei prontamente”.[37] O Senhor deu mais informações acerca desta força militar através do profeta Joseph Smith:

“E por essa razão, para que os homens se tornassem participantes das glórias que seriam reveladas, o Senhor enviou a plenitude do seu evangelho, o seu convênio eterno, arrazoando com clareza e simplicidade—
“A fim de preparar os fracos para as coisas que advirão à Terra, como também para o trabalho do Senhor, no dia em que os fracos confundirem os sábios e o pequeno se tornar uma nação poderosa e dois puserem em fuga dezenas de milhares.
“E com as coisas fracas do mundo o Senhor açoitará as nações pelo poder de seu Espírito.”[38]
NOTAS

[1]. Ver especialmente Doutrina e Convênios 1, 38, 64, 82, 101, 112, 115, 124, 133, e 138.
[2]. Os versículos 1 e 2 contêm um quiasma: A tua luz/do SENHOR/as trevas//a escuridão/o Senhor/virá surgindo … a sua glória.
[3]. Ver Isaías 32:1-2; 53:5; 63:7 e comentário pertinente.
[4]. D&C 112:23-24. Ver também D&C 1:13-16; 38:11-12; 82:5-6.
[5]. Bruce R. McConkie, “A alva rompe … depois da longa escuridão”, A Liahona, Outubro de 1978, pág. 18.
[6]. F. Brown, S. Driver, e C. Briggs, The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [Léxico Hebraico e Inglês de Brown-Driver-Briggs]: Hendrickson Publishers, Peabody, MA, 01961-3473, 1996, Número de Strong 1471, p. 156.
[7]. D&C 115:5-6; compare D&C 1:9.
[8]. Hinos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1990, Hino número 1, “A Alva Rompe”, estrofes 1-3.
[9]. Ver Nils W. Lund, Chiasmus in the New Testament [Quiasmas no Novo Testamento]: Peabody, Massachusetts, Hendrickson, 1970, p. 44; compare Donald W. Parry, Harmonizing Isaiah: Foundation for Ancient Research e Mormon Studies (FARMS) at Brigham Young University [A Harmonização de Isaías: Fundação de Pesquisas Antigas e Estudos Mórmons na Universidade Brigham Young], Provo, Utah, 2001, p. 264.
[10]. Isaías 49:22-23.
[11]. Brown et al., 1996, Número de Strong 3372, p. 431.
[12]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1995, p. 242.
[13]. Ver 2 Néfi 10:20; Ver também Isaías 24:15; 42:4, 10; 49:1; 51:5; 60:9 e comentário pertinente. Compare D&C 1:1.
[14]. D&C 124:11.
[15]. Os versículos 7 até 9 contêm um quiasma: Se congregarão a ti/subirão/voando como nuvens//pombas às suas janelas/as ilhas me aguardarão … teus filhos de longe/ele te glorificou.
[16]. Ver 2 Néfi 10:20; Ver também Isaías 24:15; 42:4, 10; 49:1; 51:5; 60:6 e comentário pertinente.
[17]. D&C 101:8-9.
[18]. Os versículos 10 e 11 contêm um quiasma: Os filhos dos estrangeiros/tive misericórdia de ti/as tuas portas estarão abertas de contínuo//nem de dia nem de noite se fecharão/para que tragam a ti as riquezas/dos gentios.
[19]. Compare Apocalipse 21:25.
[20]. D&C 124:9.
[21]. D&C 133:30-32.
[22]. O versículo 13 contém um quiasma reconhecido no hebraico original: Para ornarem/o lugar do meu santuário// lugar dos meus pés/glorificarei. Parry, 2001, p. 265.
[23]. Brown et al., 1996, Número de Strong 1265, p. 141.
[24]. Ver 1 Reis 5:2-11.
[25]. Isaías 35:1-2.
[26]. Ver Isaías 3:16; 49:14; 51:3, 11; 52:1; 61:3; 66:8.
[27]. D&C 64:41-43.
[28]. Os versículos 14 e 15 contêm um quiasma: Virão a ti, inclinando-se/que te oprimiram//cidade do Senhor/deixada, e odiada/excelência perpétua.
[29]. O versículo 16 contém um quiasma reconhecido no hebraico original: Mamarás/leite dos gentios//ao peito dos reis/alimentar-te-ás. Parry, 2001, p. 265.
[30]. D&C 124:11.
[31]. Isaías 61:4-6.
[32]. Parry, 2001, p. 233.
[33]. D&C 138:23-24.
[34]. Apocalipse 22:5.
[35]. Hinos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1985, Hino número 151, “Minha Alma Hoje Tem a Luz”, estrofe 1.
[36]. Os versículos 17 até 22 contêm um quiasma: Trarei ouro … trarei prata/nunca mais se ouvirá de violência na tua terra/o Senhor será a tua luz perpétua//o Senhor será a tua luz perpétua/todos os do teu povo serão justos/eu, o Senhor, ao seu tempo o farei prontamente.
[37]. Joseph Smith’s “New Translation” of the Bible [“Nova Tradução” da Bíblia por Joseph Smith]: Herald Publishing House, Independence, Missouri, 1970, p. 212.
[38]. D&C 133:57-59; Ver também D&C 1:19.